a máquina de fazer artigos & comunicações.

Com direito a uma página na Desciclopédia, o Lero-lero é um programa online de produção aleatória de texto, a partir de uma matriz de base e recorrendo a um corpus lexical previamente definido. O gerador de texto, cujos resultados, segundo eu próprio já verifiquei diversas vezes, podem ser altamente convincentes, destina-se, de acordo com os responsáveis, a desmontar a lógica de produção de conhecimento no sistema contemporâneo de reprodução de dados: uma vez validado pela retórica do cientificismo discursivo, aquilo que está a ser dito pouco importa, desde que seja dito da forma adequada (“rigorosa”), isto é, desde que seja dito no estilo que se espera que seja dito. O Lero-lero é capaz de gerar um volume virtualmente infinito de texto, de acordo com regras de encadeamento discursivo, lançando mão de um vasto arsenal de lugares comuns que são o vade mecum de qualquer prolífico fazedor de comunicações, e, debitando séries de frases mais ou menos sonantes, articular um discurso capaz de convencer qualquer auditório sedento de uma prosa algidamente tecnicista, polvilhada com a metalinguagem corrente do academismo vulgarizado. E é, a meu ver, um genial exercício de desconstrução dos dispositivos de validação e legitimação de conhecimento.

Não sei se faz parte do léxico de base a palavra “excelência”. Mas atendendo à quantidade de atrocidades que têm sido cometidas em nome da termitologia que lhe dá corpo, deveria ser-lhe reservado um lugar de destaque neste programa.

Aqui fica o original: “O Fabuloso Gerador de Lero-lero v2.0”, que, na apresentação, se afirma  “capaz de gerar qualquer quantidade de texto vazio e prolixo, ideal para engrossar uma tese de mestrado, impressionar seu chefe ou preparar discursos capazes de curar a insônia da platéia. Basta informar um título pomposo qualquer […] e a quantidade de frases desejada. Voilá! Em dois nano-segundos você terá um texto – ou mesmo um livro inteiro – pronto para impressão.”

E, aqui, uma réplica-homenagem, com um interface aprimorado:  o Lero-lero da ovelhinha, em cujo about pode ler-se: “Este site é um projeto acadêmico desenvolvido por Felippe Nardi e Juan Pujol, junto com a participação de João Matheus tendo em vista a viabilidade momentânea de uma atuação de vias diversificadas para o aproveitamento de tendências no sentido de auxiliar a propagação de conhecimentos antropognósticos. Ou como minha mãe diria, inúteis.” É isso mesmo. Portanto, brilhante.

Ou ainda o “Lero-Lero Filosófico” (a meu ver, o mais bem conseguido, aliás), que define de modo muito revelador e ilustrativo as suas intenções: Este hipertexto, isto é, matriz de textos potencializados em um duplo-devir virtualizante, visa proporcionar uma combinatória proto-semântica de um discurso proposicional a partir de um universo de possíveis. Sua instauração epistemológica é traçada a posteriori pela necessidade de construir-se um conhecimento teórico escamoteado em uma base glossofônica da interioridade da razão, em conssonância com a textualidade apofântica sinteticamente determinável em sua exterioridade do Ser.” Nem mais.

Se dúvidas houver ainda, o Lero-lero Filosófico acrescenta: “Este simulacro individualizante é uma homenagem ao Gerador de Lero-Lero e é uma sátira do discurso hermético pós-moderno, essencialmente, da filosofia continental francesa contemporânea.” Sim. Mas não só, acrescentaria eu.

Addenda: Obrigado ao Tiago Teles pelo envio!

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