crise, desigualdade e exploração. inevitabilidades premeditadas, ou o crime afinal compensa.

 

 

Na conferência TED onde era convidado, e que postei aqui, Richard Wilkinson demonstra com bastante rigor como não é o aumento da produtividade, nem, consequentemente, o da competitividade, o factor responsável pela melhoria das condições de vida das sociedades ocidentais, medidos em critérios básicos como educação, saúde, emprego, acesso a bens culturais, mobilidade, etc., mas sim, de modo transversal, a eficácia da distribuição da riqueza. Assim, de acordo com os estudos realizados pelo investigador e professor emérito da Nottingham University, os índices de satisfação e qualidade de vida de um país não estão ligados por nenhuma relação de proporcionalidade à competitividade da sua economia, mas, por outro lado, aumentam à medida a que as desigualdades sociais se esbatem, e diminuem na medida em que se aprofunda o fosso social. Nos países onde se regista uma maior diferença entre os 20% do topo e os 20% da base social, a qualidade de vida tende a diminuir, e todos os indicadores de crescimento se retraem.

No começo da semana, a OCDE divulgou os resultados do relatório “Divided We Stand: Why Inequality Keeps Rising”. De acordo com o estudo,  “o fosso entre ricos e pobres atingiu o nível mais elevado dos últimos 30 anos”, e “Portugal continua a ser um dos países mais desiguais do mundo desenvolvido, com um fosso acentuado na distribuição dos rendimentos, e o mais desigual entre as economias europeias”,  “em que os 20 por cento mais ricos têm rendimentos seis vezes superiores(6,1) aos dos 20 por cento mais pobres, revela a OCDE”. E isto explica muita coisa. Ajuda a perceber, nomeadamente, por que motivo o aumento acéfalo da carga horária laboral não vai contribuir em nada para o desenvolvimento social e económico do país, mas vai servir para intensificar a acumulação de capital nos 20% do topo da pirâmide social, com um roubo total de cerca de 20 dias de trabalho anuais não remunerados. Permite identificar uma nítida bipolarização social, com o desaparecimento económico das classes médias e a migração para um modelo laboral característico das zonas geográficas subdesenvolvidas. E permite tomar consciência de que o tão difamado “Estado social”, contra quem os governos europeus dirigem concertadamente as suas acções, é, hoje, o mais importante instrumento na distribuição eficaz de riqueza e mitigação do fosso social: “Ainda em relação a Portugal, o estudo demonstra que se trata de um dos países onde as transferências em dinheiro e em prestação de serviços públicos, como a educação e a saúde, revelam maior capacidade de atenuar o hiato entre os mais pobres e os mais ricos, com reduções superiores a 35 por cento, dez pontos percentuais acima da média do resultado médio das políticas sociais na OCDE”. Como diria a Alberta Marques Fernandes, contra factos, não há argumentos.

Nos videos acima, retirados do canal do youtube do The Story of Stuff Project, fica feito um diagnóstico irrepreensível das grandes linhas políticas que nos conduziam a este momento. Vale, definitivamente, a pena assistir a The Story of Stuff e a The Story of Broke. É do tipo de coisas que deviam começar a passar nas escolas.

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