não saber o que se está a dizer.

O Governo atrapalha-se nas palavras difíceis

Pedro Passos Coelho pegou-se no Parlamento com um deputado do PS e, em tom peremptório, afirmou: “Nós não fazemos malabarices com as cativações!” O primeiro-ministro, nesse primeiro dia de debate sobre o Orçamento do Estado, repetiu a ideia, de forma a que o eco na abóbada do hemiciclo devolvesse em acusação, para a bancada socialista, partido que formou o anterior Governo, aquilo que terá entendido como insinuação contra o actual Executivo PSD/CDS: “Sim, senhor deputado. Nós não fazemos malabarices!”

“Malabarice” é giro, soa bem, mas não existe no dicionário. Há “malabarismo”, “malabarista”, “malabarístico”, e, relativo ao território de Malabar, na Índia, as palavras “malabar”, “malabarense”, “malabaresco” e “malabárico”. Também existe “malabruto”, para designar um homem estúpido mas, julgo, Passos Coelho não queria ir por aí.

Não me atrevo a procurar definições rigorosas para “cativações”, pois “cativar”, que lhe está na origem, tanto significa subjugar, prender ou encantar e hoje não estou para debates ideológicos.

O ministro Álvaro Santos Pereira, ontem, em mais um episódio da mesma novela orçamental, esteve largos minutos a perorar sobre a “descompetividade” da economia. Entusiasmado, foi deleitando a audiência com “descompetividade” para lá e “descompetividade” para cá. Quando anunciou que em 2012 estaríamos no início do fim da crise, já toda a plateia sorria, condescendente, quase ignorando a nova piada do ministro.

É verdade que entre os actores políticos e os comentadores de televisão, estatutariamente sábios nas matérias que analisam mas comprovadamente ignorantes em língua portuguesa, está há muito vulgarizada a oralização da suposta palavra “competividade” em vez da correcta “competitividade”. Também há quem use “precaridade” em vez de “precariedade”. E já ofereceram ao povo, além de impostos, a “desorçamentação”.

Mas o digníssimo doutorado em Economia pela Universidade Simon Fraser, Vancôver, Canadá (canudo para o qual, suponho, o domínio do português foi irrelevante), adicionou um contributo valioso: com o prefixo “des” propõe aos eruditos um neologismo para substituir a expressão “falta de competitividade”. Com tantos cortes para impor não admira que ele pense também em diminuir as sílabas que temos para dizer.

Claro que um grande político, um fabuloso governante, pode, em tese, sem consequências graves, tratar a gramática ao pontapé. O pior não é eles falarem mal, é eles parecerem não saber o que estão a dizer.

Pedro Tadeu, no DN. Sublinhado meu.

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