ilustração da crítica literária.

O último romance de José Rodrigues dos Santos “não é verdadeira literatura”. “É uma imitação requentada, superficial e maçuda [de outras obras]”, acusa o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), numa nota demolidora sobre O Último Segredo, o romance em que o jornalista da RTP se propõe, com recurso a “fontes religiosas e informações históricas e científicas”, revelar “a verdadeira identidade de Jesus Cristo”.

Sem discutir a qualidade literária da obra, o SNPC não disfarça a irritação face ao “tom de intolerância desabrida” com que, no entender deste organismo da Igreja Católica, o autor pretende entrar “na história da formação da Bíblia”, por um lado, e na “fiabilidade das verdades de Fé em que os católicos acreditam, por outro”.

Na nota publicada ontem no site do SNPC, José Rodrigues dos Santos é acusado de pretender “abrir com grande estrondo uma porta que há muito está aberta”. Pior: “Confunde datas e factos, promete o que não tem, fala do que não sabe”, lê-se ainda na nota do organismo dirigido pelo padre e poeta José Tolentino Mendonça, na qual o romancista é acusado de escrever “centenas de páginas sobre um assunto tão complexo sem fazer ideia do que fala”.

Ao PÚBLICO, José Rodrigues dos Santos reagiu num único parágrafo. “O mais interessante nesta crítica é que não é contestado um único facto que apresentei em O Último Segredosobre a vida de Jesus. Há uma boa razão para isso. É que tudo o que no romance escrevi, no que diz respeito a citações biblicas ou informações históricas ou científicas, é verdadeiro – e a Igreja sabe.”

Apesar de Rodrigues dos Santos ter vendido mais de um milhão de exemplares das suas obras e estar traduzido para 17 línguas, não é de esperar que em torno deste nono romance se desencadeie uma polémica semelhante à ocorrida em 1992 quando o então subsecretário de Estado da Cultura, Sousa Lara, decidiu vetar o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, a uma candidatura ao Prémio Literário Europeu, com a alegação de que este não representava Portugal. Mesmo assim, não é todos os dias que a Igreja Católica se põe a tecer considerandos sobre uma obra literária. Em tom tão desabrido, ainda por cima. “É impensável, por exemplo, para qualquer estudioso da Bíblia atrever-se a falar dela, como José Rodrigues dos Santos o faz, recorrendo a uma simples tradução. A quantidade de incorrecções produzidas em apenas três linhas, que o autor dedica a falar da tradução que usa, são esclarecedoras quanto à indigência do seu estado de arte.”

Em O Último Segredo, José Rodrigues dos Santos recupera a personagem do historiador e criptanalista Tomás de Noronha para a pôr “no trilho dos enigmas da Bíblia”, a pretexto da investigação sobre o assassínio de uma paleógrafa na Biblioteca Vaticana. Na apresentação que do romance é feita pela Editora Gradiva, lê-se que a história se baseia em “informações genuínas” para desvendar “a chave do mais desconcertante enigma das Escrituras”. Muito ao estilo de Dan Brown, portanto. E uma das coisas que está a irritar a Igreja Católica é a nota, “colocada estrategicamente à entrada do livro, a garantir que tudo é verdade”, como explica ainda o SNPC.

No documento, Rodrigues dos Santos é acusado de ter assumido para si as teses que o teólogo norte-americano Bart D. Ehrman fez constar na sua obra Misquoting Jesus. The Story Behind who Changed the Bible and Why, a qual o SNPC acusa de partir de “uma tese radical, claramente ideológica, longe de ser reconhecida credível”. Comparar as duas obras é, conclui o SNPC, “tarefa com resultados tão previsíveis que chega a ser deprimente”.

artigo do Público, «Igreja Católica arrasa o último romance de José Rodrigues dos Santos», de 25 de Outubro.

 

É delicioso ser confrontado com fresquíssima tenacidade crítica dos teólogos católicos. Não estamos, de modo nenhum, perante um novo caso Madame Bovary. O que sucede, hoje, é que as estruturas do poder religioso conseguem articular na perfeição a linguagem crítica dominante para, sem grandes contrastes, a utilizarem em proveito dos seus fins. E isso não contraria em nada o uso que hoje se faz da literatura nos meios de difusão da crítica. Pelo contrário: reconduz a disposição ética dos intelectuais mainstream à verdade dos seus intentos. Não há, com efeito, uma diferença de substância entre esta nota do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC) e as notas críticas do ípsilon, da LER, do Câmara Clara ou dos blogues sobre livros que toda a gente conhece. O tom analítico com laivos de isenção é o mesmo, a presunção de um ponto de vista transcendente repete-se, a autoridade moral do leitor equiparável, o debitar de juízos morais disfarçados por uma linguagem aparentemente neutra, sobreponível, a ocupação de um lugar pastoral relativamente à comunidade dos demais leitores, igualzinha (onde estão as estrelinhas atribuídas pelo SNPC ao livro??), as estratégias de colagem da obra a categorias abstractas ou a outras obras como táctica de manipulação do valor relativo são comuns, como igualmente comum é a redução a etiquetas crípticas e operadores conceptuais que funcionam como denominadores comuns de insulto ou loa – aqui, evidentemente, de insulto. A nota do SNPC podia figurar, sem grande escândalo, nas colunas críticas de boa parte da nossa imprensa. Apenas um aspecto a distingue singularmente dos cronistas a que estamos habituados: é que aqui os objectivos específicos assumem-se inteiramente, deixando a nu os interesses do campo que justificam e legitimam a tomada de posição radical. Aqui, não há em grau tão elevado o subtil retorcer de pontos de vista para simular uma abordagem rigorosa, imparcial, e desembocar na confirmação dos critérios de selecção que toda a gente sabe quais são, e que espécie de textos admitem. Aqui, essa motivação inconfessável é a própria raison d’être da nota crítica, sem qualquer pudor ou disfarce: aqui, a crítica é isso mesmo, crítica, enquanto acto de uma escolha subjectiva (neste caso, intersubjectiva), parcial, ideológica, defensiva, doadora de identidade. Sem papas na língua. E isto faz-me pensar nos tempos em que ainda havia lugar à disputa de posições no âmbito da crítica e, de forma mais alargada, dos estudos literários. Quando o equilíbrio de forças ainda permitia que alguém assumisse objectivamente o lugar que ocupava no campo – tal como faz aqui José Tolentino Mendonça. Há coisa de um ano, a propósito de uma coisa vermelha, levantou-se por aí uma espécie de polémica que fez lembrar, ainda que de modo um pouco pálido, o que seriam esses tempos em que alguém ou era pró ou era contra. Mas a escassez de debate, a ausência de pontos fracturantes, a carência de discussões, aquilo que se pode chamar, sem exagero, discussões, acusa o estado de letargia a que chegámos. Isto porque a golpes de uma ambição de rigor se destruiu a possibilidade de ocupar um lugar na base de um conjunto de convicções. O especialista, e o crítico à sua imagem, é justamente a materialização institucional daquele que se desenraizou ao ponto de poder falar do seu objecto independentemente de crenças, contextos, posições relativas ou influências exteriores. Paradoxalmente, o seu discurso, de um certo modo nos antípodas do do SNPC, é o discurso que qualquer bom imitador pode mimetizar, porque ele diz o que é esperado que ele diga a partir de um ponto neutral. O lugar do crítico é, hoje, o daquele taxista com pronúncia francesa que foi conduzido por engano ao lugar do convidado durante um directo da BBC e é tomado pelo especialista em tecnologias da informação que era suposto ali estar. Quando lhe pedem um parecer sobre um veredicto relativo à legalidade do download de conteúdos de autor, formula uma declaração redonda, quase insuspeita, a ponto de a pivot continuar a entrevista, e a emissão seguir adiante, quase sem se fazer notar estranheza – não fosse o esgar no rosto do taxista quando percebe naquilo que o meteram, ” – I’m very surprised to see this verdict to come on me, because I was not expecting that, when I came they told me something else, and I’m coming, so it is a big surprise, anyway. – A big surprise?  – Exactly. – Yes, yes…”.

Um grande bem-haja ao SNPC.

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