breve nota sobre o plágio.

O expresso dá nota de uma reportagem (da Visão) sobre os números alarmantes de plágio nas universidades portuguesas, a propósito da divulgação do estudo “Integridade Académica em Portugal”, de Aurora Teixeira.

O problema não é, em boa verdade, novo, nem tampouco contido nas nossas fronteiras, e muito menos se limita aos níveis iniciais do percurso universitário (ainda tenho bem presente o caso do filho de Kadafi que pagou a um académico líbio para lhe escrever a tese que apresentou à London School of Economics, ou o caso do ministro da defesa alemão que em Março apresentou a demissão, depois de ter reconhecido haver plagiado a tese de doutoramento). O problema é global e transversal, e tanto toca à turma do secundário que copia pela wikipedia como às universidades de topo à escala internacional, nos mais avançados ciclos de estudos. Um pouco por todo o lado, o esquema repete-se, com nuances que resultam da adaptação à circunstância: do aluno ingénuo de licenciatura que cita artigos dos professores sem referenciar as fontes e acaba humilhado logo no 1.º ano, ao estudante de doutoramento que paga a um ghost-writer para lhe escrever um capítulo, dois, a tese inteira, passando pelo aluno de mestrado que descarrega dissertações das bases de trabalhos académicos em inglês, e, depois de traduzidas, assina com o seu nome, e pelos ecologistas que tentam “reciclar” trabalhos de umas cadeiras para as outras, ano após ano. A lista de modalidades não é monótona, e reflecte uma boa dose de criatividade.

Da parte das instituições de ensino superior, as respostas tardaram um pouco, mas lá chagaram, acusando uma criatividade bem menos trabalhada: o software de detecção de texto plagiado, funcionando essencialmente como um motor de busca de textos com semelhanças ou analogias (ao nível lexical, frásico, estrutural), labora ao nível da superfície dos textos, …e também do problema. É que, como qualquer plagiador amanuense descobrirá em dois tempos, não é difícil contornar estes programas. Basta aplicar um ‘decapante’ ao nível da superfície do discurso plagiado, e ele fica irreconhecível – pelo menos, para um computador. Algumas alterações ao nível do vocabulário, da ordem das frases, ou a introdução de alguma palha pelo meio dos parágrafos e o texto está limpo e honesto aos olhos do software de detecção de plágio.

E não podia ser de outra forma: procurar mitigar o plágio procurando na superfície dos textos apresentados as marcas de apropriação é tentar atacar o problema combatendo os sintomas, conservando os agentes em ignorância da causa.

Não pretendo fazer aqui uma exposição do que penso sobre o estado actual do panorama universitário, nem este seria o lugar adequado. Mas penso – aliás, estou absolutamente convencido – de que é impossível contrariar a tendência para desrespeitar a integridade do trabalho científico sem compreender o que está mal no actual establishment académico. Acreditar que o problema está na ponta das folhas, e que o tronco transpira saúde enquanto a estrutura de produção científica e intelectual é parodiada a esta escala é, a meu ver, uma perfeita ilusão.

Talvez valesse a pena dedicar-se alguma atenção a perceber de que modo o paradigma que temos hoje se relaciona com a emergência destes fenómenos. E, talvez aí, então, fosse possível ver claramente visto  que de um modelo essencialmente quantitativo, cumulativo, pseudo-positivista, agarrado a tiques de cientificismo balofo de cartilha e a uma retórica enfática da novidade, rotura, inovação, cutting-edge-state-of-the-art, foguetes e tiros pró ar, não podia, efectivamente, resultar outra coisa. Como consequência natural de tudo isto, é o próprio sistema académico que estimula e acolhe formas de legitimação do trabalho de reprodução do mesmo: publicação fatiada de papers, avaliação da produtividade científica com base em número de publicações, curricula medidos a metro, etc. Fazer em extensão e apressadamente parece ser o mote e a chave para o sucesso, hoje.

O crescimento dos casos de plágio é o correlato subterrâneo do modelo de ‘competitividade’ aplicado à produção científica.

A própria definição dos planos de estudo condiciona o surgimento destes fenómenos, por via da compressão imponderada da duração dos ciclos, da promoção de uma espécie de ‘corrida aos diplomas e certificados’, de uma urgência de certificar qualquer coisa, a qualquer custo (e, não, não estou a pensar no novas oportunidades).

A certa altura, perdi boa parte do fascínio que me inspirava assistir à comunicação de trabalhos académicos em encontros com investigadores. Dei-me conta de que, salvo poucas e (muito) louváveis excepções, o que aparecia era, mais do que o desejo de estimular um pensamento partilhado e empenhado, a vontade de preencher um espaço que não podia ficar vazio. Mesmo que essa forma de preenchimento não fosse muito mais do que uma insistência cansada e já tímida de cada um em associar o seu nome a um formulário, repetindo-se ou parafraseando-se, na espiral interminável de uma conversa que se conduz para lado nenhum.

Não será, de modo nenhum, fácil. E estou certo de que ninguém traz a solução no bolso das calças. Mas se nos queremos livrar do plágio, talvez tenhamos de nos livrar, em certo sentido, de uma boa parte de nós mesmos.

Anúncios