falta muita coisa, Cruzeiro Seixas…

“Falta qualquer coisa no mundo” disse o artista plástico e poeta durante uma entrevista à agência Lusa no Estoril, onde reside há dois anos, num lar. Deixou de desenhar e pintar, mas continua a receber muitos convites para expor a vasta obra.

Foi com Mário Cesariny (1923-2006) que descobriu o pensamento surrealista. Então deu-se aquilo a que Cruzeiro Seixas chama “o milagre”.

“Descobri a minha personalidade. Ele abriu-me estas portas. Era um poeta a sério, um intelectual, uma pessoa extraordinária e apaixonante”, recordou.

O pintor e poeta acredita mesmo que se não fosse Cesariny estaria hoje “a trabalhar numa mercearia ou qualquer coisa assim…”

Fundador do grupo “Os Surrealistas” – com Mário Cesariny, e Fernando José Francisco, falecido no início de 2009 – Artur Cruzeiro Seixas [n. 1920] expõe desde os anos 1940 e está representado em muitas coleções particulares e museus nacionais, nomeadamente o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e no Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado.

Aos 90 anos, Cruzeiro Seixas aproveita os dias e as noites para dormir. Chama-lhe a sua “fuga”, porque já não consegue ler, nem escrever, nem pintar. Ouve música clássica na rádio, recebe algumas visitas e gosta de conversar.

“As pessoas andam hoje à procura de uma ideia nova, que não há. O catolicismo, a monarquia, as ideias republicanas serviram a Humanidade durante séculos e depois foram sendo cada vez menos políticas e mais filosóficas. Este é um momento de viragem”, avalia o artista.

“O pior disparate do mundo de hoje, e Portugal ressente-se muito disso, é as pessoas pensarem que a vida intelectual, a arte, a cultura, são coisas subsidiárias e devem ficar em segundo plano”, criticou.

No quarto virado para o mar, Cruzeiro Seixas resume uma longa vida: “Perfiz uma obra que não é genial. É um depoimento. Reuni uma das melhores coleções de arte em Portugal. E fiz uns disparates”, conclui, sorrindo.

Uma conversa com Cruzeiro Seixas, para ler no DN, aqui.

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