como?!

A início, acreditei que era uma partida de 1 de Abril – uma partida muito perspicaz e oportuna, até. Mas hoje não é 1 de Abril, e o Público não é dessas coisas. É mesmo verdade: durante os próximos quatro anos a estação Baixa-Chiado chamar-se-á “Estação PT Bluestation”. É verdadeiramente orwelliano. Não julguei possível uma alienação simbólica do espaço público de modo tão grosseiro, tão obsceno, tão degradante. O facto, em si, pelo muito que tem de grotesco, torna dispensável qualquer comentário. Mas deve fazer-nos pensar até onde chegámos. Como foi possível isto dar-se como se se tratasse de algo natural? A apropriação toponímica de um espaço que passa a remeter para uma marca, um grupo privado que de um momento para o outro se torna a insígnia e a nomeação de um lugar, um conceito puramente comercial que muitos passam a ser obrigados a frequentar todos os dias. Não tenho qualquer dúvida de que se trata de um desrespeito grave pela integridade individual de todos os utilizadores do espaço, mas em nome de quê foi possível alguém fazer isto? Em nome de quem é legítimo perverter de tal modo a hierarquia de valores de um espaço que devia ser público?
Lentamente, a lavagem cerebral da política proto-fascista dos mercados está a atrofiar a capacidade reactiva das nossas comunidades. Chegou a um ponto alarmante.
Se o conceito chegar ao Porto, imagino-me, daqui a pouco tempo, a dar indicações a alguém de visita à cidade:
” – Então, é simples: entra aqui na estação Sonangol, passa o Heroísmo, passa a Galp Energia, sai na Amorim SGPS e apanha a linha amarela na direcção Nestlé. Depois de passar pela Ongoing, sai na estação Jerónimo Martins, e é logo ali.”
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