não é, de todo, um facto.

Esta semana, Vasco Graça Moura, na sua crónica no DN, publicou algumas reflexões que merecem ser lidas. Não só pela forma como se revela clara e quase dolorosamente o estertor de expressão de alguém que se vê forçado a reconhecer o indesmentível perante a acção deste governo (“torna-se evidente que as políticas de agressão fiscal directa ou indirecta a uma classe média que é muito mais média baixa do que média alta ou mesmo “média média”, vão ao arrepio de tudo o que tinha sido garantido. O assalto à mão fiscal agora anunciado à queima-roupa acarreta para os portugueses uma situação de escravatura intolerável pela apropriação abusiva dos proventos do trabalho pela voracidade do Estado.”), como, e talvez sobretudo, por revelar que ainda há alguém, no partido do poder, capaz de compreender que por este caminho abeiramo-nos a passos largos de uma tragédia social sem precedentes. Ignoro qual a expressão da postura de VGM na estrutura governamental – adivinho que reduzida. Mas seria importante ver alguma coerência da parte de quem entende que está do lado errado. É uma questão de responsabilidade.

Seja como for, o que gostaria de sublinhar aqui é o Post Scriptum à mesma crónica, cuja lucidez crítica, num tema que começa a cair num unanimismo lamentável (inclusivamente, e para alarme meu, nos meios académicos…), me parece fazer jus ao tradutor d’A Divina Comédia:

Post-Scriptum: Na sua entrevista à “Única” do Expresso de 3 de Setembro, o ministro da Educação escamoteia deploravelmente a questão do Acordo Ortográfico, dizendo que este “é um facto”. Não é. Os factos são os seguintes: O Acordo Ortográfico não está em vigor. Angola e Moçambique não o ratificaram. Não existe o vocabulário comum que o AO exige como condição prévia. O ministro não estudou o problema, nem no aspecto jurídico nem no científico. Não leu a documentação existente. Não sabe quanto custa ao país a precipitação criminosa em aplicar um instrumento inaplicável e calamitoso. O facto é que Nuno Crato infelizmente não sabe do que fala. Se as reformas que ele prepara para o ensino forem tão levianamente abordadas como esta, então a Educação em Portugal não irá muito longe. Custa ver uma personalidade da sua envergadura intelectual e da sua intransigente seriedade ceder assim à lei do menor esforço.


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