“Não me considero rico, sou um trabalhador.”

Ainda em choque perante a inépcia revelada pelo ministro VG na entrevista de ontem à noite, ao reler uma nota do i assinada pelo editor Nuno Ramos de Almeida lembrei-me deste gráfico, que encontrei via Paulo Querido.

Diz respeito ao crescimento económico do rendimento das famílias norte-americanas, discriminado por estratos sociais (os 20% da base, os segundos 20%… o top 5%, e… o top 1%), e, como observa o PQ, aplica-se perfeitamente a todos os países onde o sistema capitalista chegou à sua maturação, Portugal incluído.

Pode ler-se no texto do i, a propósito da frase de Américo Amorim em título:

Esta frase é reveladora: Amorim não é rico porque trabalha. Logo, quem trabalha, regra geral, não consegue enriquecer – diz-nos o homem mais rico de Portugal e confirmam-nos as estatísticas: no mundo desenvolvido, nos últimos 30 anos, os ricos ficaram muito mais ricos e os pobres receberam uma menor percentagem do rendimento disponível. Atentemos ao exemplo da maior economia do mundo. Entre 1978 e 2008, o rendimento do segmento de 1% dos mais ricos da população norte-americana cresceu fortemente. Em 30 anos, passou de 8,95% do produto interno bruto para 20, 95% do mesmo PIB. É fácil perceber a quem eles foram tirar o dinheiro.

Os teóricos de dar mais dinheiro aos ricos defendem que apesar de isso criar alguns problemas de desigualdade criaria uma sociedade mais competitiva e no final ter-se-á mais riqueza e mesmo os mais pobres viverão melhor. “Quando a maré sobe, todos os barcos sobem com ela”, garantem. Infelizmente, como nos mostra o economista da Universidade de Cambridge Ha-Joon Chang, o resultado é precisamente o inverso: aumentaram as desigualdades, diminuiu a taxa de crescimento das economias no mundo desenvolvido e de facto a maré subiu, mas apenas para alguns. A maioria está prestes a afogar-se nesta crise. Pode mesmo dizer-se que estas políticas que privilegiaram o lucro fácil e não taxaram devidamente a especulação financeira conduziram o mundo à crise em que se encontra. Segundo o economista francês Michel Husson, a crise de 2008 custou uma perda de mais de 900 mil milhões de euros ao PIB europeu. Para provar que não há coincidências, a este valor corresponde grosso modo o crescimento da dívida pública dos países do continente. Foram 980 mil milhões de euros entre 2008 e 2010. Depois de os estados e os contribuintes terem pago os resultados da especulação financeira dos mais ricos, vendem-nos como solução que paguemos tudo, uma segunda vez, em cortes sociais. O Estado gordo de que falam são os serviços de saúde, a educação, os transportes e a segurança social que engloba o dinheiro que já descontamos para as nossas reformas e para eventuais subsídios de desemprego e doença. Já adivinhou ao bolso de quem vão parar estes nacos de carne?

Em todo mundo é o Estado que melhor gere áreas como a saúde e a educação. Passar todos os bens e serviços comuns para os privados só vai ter dois resultados: vamos pagar mais e enriquecer muito mais alguns empresários.

Segundo dados do Eurostat, as taxa de lucro na Europa já recuperaram para valores anteriores à crise e iguais às de 1999. O desemprego, esse, mantém-se no máximo. Quem trabalha está a pagar a crise e a dar mais dinheiro a ganhar aos ricos. O prémio que lhes querem dar é mais austeridade, desemprego e o fim do Estado social. Se em Portugal fosse taxado o património como em França, não era preciso cortar no subsídio de Natal. Em vez de termos um Estado gordo, o que nós temos não serão ricos monstruosamente obesos?

O gráfico responde. Lamentavelmente, o ministro ainda não percebeu.

 

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