repetição de caliban.

Os confrontos que se têm registado em Inglaterra vão servindo de pretexto para se destilar hipocrisia um pouco em todos os quadrantes da opinião publicada. Os factos, em si, não diferem em nada do que aconteceu na periferia de Paris, em 2008. A única diferença é que, em 2008, ainda não tinham ocorrido os levantamentos no norte de áfrica. Isso pode ser uma pedra no sapato de alguns comentadores e opinion makers de trazer por casa, mas nada que os impeça de aproveitar a situação para uma apologia do modelo político europeu actual, de triunvirato Sarkozy-Merkel-Cameron. Estou absolutamente seguro de que se algo de semelhante se passasse, por hipótese, na Venezuela, os mesmos comentadores e opinion makers acorriam a dizer que os levantamentos populares do norte de áfrica se tinham espalhado a outras latitudes, e que a comunidade internacional deveria ser unânime em apoiar os gestos de ‘justa revolta’ da população. Estou absolutamente seguro. Infelizmente, as correntes de opinião regem-se por jogos de compromisso e oportunidade. Ninguém, ou quase ninguém refere o ataque concertado e sem tréguas que o governo de Cameron tem desferido nas franjas mais vulneráveis da sociedade britânica. Ninguém, ou quase ninguém refere que as propinas das universidades públicas foram aumentadas para o triplo, por decreto, com validade a partir do mês de Setembro. É claro que nada disto justifica ou legitima a destruição de património alheio, ou os roubos e pilhagens. Mas é importante perceber que estes não são gestos imprecendentes: decorrem de outros roubos e outras pilhagens, levados a cabo por quem tem o dever ético de servir de modelo a uma sociedade justa, pacífica, e de iguais oportunidades, e não o tem sabido fazer, de todo.

Nos últimos dias, o Público teve a sensatez de publicar alguns trabalhos que fazem a excepção, seguindo contra a corrente da inanidade mental. Um deles, assinado por Rita Siza, chama-se «Os criminosos são operários, estudantes, homens, mulheres e até crianças», e, a dado momento, tem a lucidez de afirmar o seguinte:

Até agora, tinha-se pintado um retrato impreciso da turba envolvida nos saques e desacatos. A generalização apontava para “jovens de classes desfavorecidas residentes em bairros sociais”. Alguns seriam “elementos” já conhecidos das autoridades; outros cidadãos marginalizados, arrastados pela corrente: “Pessoas habitualmente discriminadas e que de repente se vêem poderosas”, explicava o criminólogo John Pitts, acrescentando que essa sensação “pode ser tão alucinante como uma droga”.

Mas à medida que as centenas de pessoas detidas nas pilhagens e confrontos vai sendo presente a tribunal, é possível ficar com uma ideia mais precisa sobre a demografia dos criminosos. Não há mais rapazes do que raparigas, nem há predominância de minorias, étnicas ou religiosas. Não são todos desempregados ou estudantes sem perspectivas de futuro. E a haver uma “inspiração” para os saques, é a do consumismo desenfreado.

Não deveria ser difícil perceber isto. A lição da descolonização do império britânico deveria ter ensinado alguma coisa. Que não é possível tratar seres humanos como animais, encurralados em bairros étnicos, acenar-lhes diariamente com estímulos a um consumo que jamais poderão satisfazer, espicaçá-los sistematicamente com uma violência discriminatória contínua, psicológica, segregacionista, quase subliminar, e esperar que tudo se mantenha assim, para sempre.

Noutra peça, uma entrevista de Joana Gorjão Henriques à criminologista Suzella Palmer, destaco, do depoimento desta investigadora da Universidade de Bedfordshire:

Não aprovo a violência, os incêndios, os roubos, mas percebo e há razões muito importantes por detrás do que se está a passar. Precisamos de olhar para as causas. Acho que isto é uma chamada de atenção para toda a sociedade britânica. […] As pessoas estão zangadas, infelizes, frustradas. Estamos a atravessar problemas económicos, mas comparando com outros países ainda somos um país próspero. Muitas das nossas crianças estão zangadas e infelizes com muitas coisas e precisamos de ter tempo para as ouvir, coisa que não temos feito. […] Acho que é um protesto contra o facto de não estarem a ser ouvidos. É interessante que os assaltos sejam feitos por miúdos que saem à rua e agarram em qualquer coisa: telemóveis, bebidas, qualquer loja. É quase uma reacção à prosperidade do país a que estes jovens não têm acesso. Quando se olha para as multinacionais, vê-se que direccionam as suas campanhas de marketing para os jovens. E eles sentem uma enorme pressão para consumir, só que não têm oportunidade de ganhar o dinheiro de forma legítima para o fazer. E isso é um problema. Depois os cortes todos que afectam os benefícios sociais, as propinas e a falta de oportunidades de trabalho não deixam os jovens na posição de serem os consumidores que são pressionados a ser. E isso gera frustração. Também há questões que têm a ver com respeito. Eu sinto e vejo que os jovens são totalmente desrespeitados pela sociedade. Quando olhamos, por exemplo, para a justiça criminal, os jovens estão a ser criminalizados a um ritmo acelerado. Aquilo que temos de perceber é que é normal que os jovens se rebelem e se envolvam em comportamentos anti-sociais. Há muitas coisas que os jovens fazem hoje que são feitas há milénios, mas hoje eles são criminalizados. Estou a pensar, há 30 anos podia ser estridente em público falar alto, mas hoje os jovens são criminalizados por isso. Claro que não se trata de ignorar o facto, mas faz-se através de orientação e apoio, e se os vamos punir então que não seja através do sistema criminal – porque aí sentem-se criminosos. Colocam-lhes rótulos, tratam-nos como criminosos e eles começam a agir como se fossem.

“Colocam-lhes rótulos, tratam-nos como criminosos e eles começam a agir como se fossem.” E poderia ser de outra forma?

Anúncios