destaques meus #1

Uma das linhas ideológicas do actual governo é a tentativa de se apresentar a si próprio como um governo sem ideologia, um governo pragmático para fazer o que é necessário, custe o que custar. […] Assim disfarçada de verdade suprema, como o «a bem da nação» de que a nação tão má memória guarda, a ideologia das classes dominantes reivindica para si própria uma qualidade divina, e onde os seus executantes adquirem qualidades ligadas à capacidade revelada para fazer vencer o bem contra o mal – nuns casos corajosos e pragmáticos, noutros incompetentes e desonestos. Imaginem que vos assaltam a casa. Seguramente que não exclamariam «Que corajosos, roubaram-me em plena luz do dia!» ou «Que pragmáticos, em três minutos até os colchões levaram!». A força dos mecanismos de dominação ideológica expressa-se na capacidade de colocar milhões de vítimas a chamar corajoso ao Sócrates e pragmático ao Passos Coelho. Neste cenário, a luta de classes não existe, só o confronto entre o bem e o mal. Retirada a sua própria ideologia da categoria de ideologia, a palavra passa a ser um anátema usado sobre os que se lhe opõem: estão a fazer ideologia! E então, colocam a questão: querem um governo pragmático ou ideolóóóógicoooo? (deve ser lido com a entoação da voz-off de um filme de terror…).

Mas, desde logo, esta contradição entre pragmatismo e ideologia não faz sentido nenhum. Uma coisa é a capacidade de executar um determinado programa, e outra completamente diferente é qual o programa que se pretende executar. Tão pragmático é roubar o subsídio de férias para o injectar na banca como o seria nacionalizar toda a banca e aumentar os salários. Tão pragmático é roubar o abono de família para o entregar aos accionistas da PT como o seria cobrar os impostos devidos a esses accionistas e aumentar o abono de família. […]

Manuel Gouveia, «Pragmatismo ou Ideologia?», Avante!, n.º 1966, 4 de Agosto de 2011, p. 4.

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