“E não hei-de Eu compadecer-me da grande cidade de Nínive?” Jn 4, 11

1. Na semana passada, Mario Vargas Llosa publicou, no el paísum artigo chamando a atenção para o livro de Nicholas Carr nomeado para o Pulitzer: The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains (também valerá a pena ler a recensão da «Sunday Book Review» no the new york times). Num texto muitíssimo equilibrado, Vargas Llosa sublinha algumas das conclusões de Carr, um antigo aluno de Literatura em Dartmouth e Harvard que, um certo dia, começou a desconfiar que algo estava a mudar radicalmente no modo como lia livros, e decidiu tomar a sério a tarefa de perceber de que modo a internet está a transformar a forma como lidamos com o conhecimento.

No es verdad que el Internet sea sólo una herramienta. Es un utensilio que pasa a ser una prolongación de nuestro propio cuerpo, de nuestro propio cerebro, el que, también, de una manera discreta, se va adaptando poco a poco a ese nuevo sistema de informarse y de pensar, renunciando poco a poco a las funciones que este sistema hace por él y, a veces, mejor que él. No es una metáfora poética decir que la “inteligencia artificial” que está a su servicio, soborna y sensualiza a nuestros órganos pensantes, los que se van volviendo, de manera paulatina, dependientes de aquellas herramientas, y, por fin, en sus esclavos. ¿Para qué mantener fresca y activa la memoria si toda ella está almacenada en algo que un programador de sistemas ha llamado “la mejor y más grande biblioteca del mundo”? ¿Y para qué aguzar la atención si pulsando las teclas adecuadas los recuerdos que necesito vienen a mí, resucitados por esas diligentes máquinas?

Fiz o meu secundário, em humanidades, quando a wikipedia revelava ao mundo as maravilhas do seu esplendor. A tentação do paradigma copy-paste era o motivo da desgraça de muitos colegas. A mim, não sei bem porquê, nunca me seduziu especialmente. Cheguei à faculdade mais ou menos quando estava a chegar, também, o flagelo wikipedia aos trabalhos académicos. Em fóruns científicos, era quase lugar-comum afirmar-se que as ciências humanas e os estudos literários deveriam reconsiderar o seu papel, agora que um modelo de conhecimento enciclopédico parecia estar ao alcance de qualquer um. Por tudo isto, foi com um certo desapontamento que comecei a perceber que as práticas emergentes não lidavam de forma crítica ou criativa com a epistemologia do arquivo virtual – aliás, não lidavam de todo, simplesmente – , mas que se estavam a reposicionar no sentido de uma liquefacção progressiva e dissolvente, como que recuando, sem outra resposta, para um lugar tímido de contrição ou embaraço, onde se fala em voz baixa para o vizinho do lado, por se saber que não se tem muito a dizer a uma audiência menos complacente. Não é preciso ir muito longe para perceber as consequências que isto produziu. O medo de uma frase mais universal trouxe-nos a alguns lugares estranhos, e não é raro darmos connosco a percorrer vielas sinuosas para evitar certos caminhos onde pressentimos a heresia da enciclopédia. Como o velho e bizarro proprietário de um gabinete de curiosidades, vamos coleccionando ninharias preciosas e sem destino, com a esperança – mas sem de facto acreditarmos muito – de que um dia poderemos aspirar a um museu de coisas raras, ou para raros apenas. A sugestão de Vargas Llosa é certeira: a ditadura da informação empurrou o conhecimento para o lugar de peça de museu:

No es extraño, por eso, que algunos fanáticos de la Web, como el profesor Joe O’Shea, filósofo de la Universidad de Florida, afirme: “Sentarse y leer un libro de cabo a rabo no tiene sentido. No es un buen uso de mi tiempo, ya que puedo tener toda la información que quiera con mayor rapidez a través de la Web. Cuando uno se vuelve un cazador experimentado en Internet, los libros son superfluos”. Lo atroz de esta frase no es la afirmación final, sino que el filósofo de marras crea que uno lee libros sólo para “informarse”. Es uno de los estragos que puede causar la adicción frenética a la pantallita. De ahí, la patética confesión de la doctora Katherine Hayles, profesora de Literatura de la Universidad de Duke: “Ya no puedo conseguir que mis alumnos lean libros enteros”.

Não é de estranhar. Só por presumida ingenuidade poderemos ainda fingir espanto perante o recuo da leitura. O modelo da informação rápida e de consumo fácil colonizou as estruturas académicas, desde a duração dos ciclos de estudos ao que se entende por trabalho científico, passando pelas áreas disciplinares emergentes. Quando o paradigma do “ler umas coisas e articular uns textos” se vem impondo com o fatalismo de coisa inevitável enquanto critério de exequibilidade, com o nosso (ainda que doloroso) consentimento, já não temos o direito de censurar o ‘estudante’ que não consegue acabar um livro. Não creio que alguém saiba onde isto irá parar. Espero que haja por aí mais gente como Nicholas Carr e Vargas Llosa.

2. Paul Boghossian, autor de Fear of Knowledge: Against Relativism and Constructivism publicou, no Opinionatorum texto que vale a pena ler:

When we decided that there were no such things as witches, we didn’t become relativists about witches.  Rather, we just gave up witch talk altogether, except by way of characterizing the attitudes of people (such as those in Salem) who mistakenly believed that the world contained witches, or by way of characterizing what it is that children find it fun to pretend to be on Halloween.

[…]

There is no half-way house called “moral relativism,” in which we continue to use normative vocabulary with the stipulation that it is to be understood as relativized to particular moral codes.  If there are no absolute facts about morality, “right” and “wrong” would have to join “witch” in the dustbin of failed concepts.

The argument is significant because it shows that we should not rush to give up on absolute moral facts, mysterious as they can sometimes seem, for the world might seem even more mysterious without any normative vocabulary whatsoever.

E continua.

3. Antecipando um excerto do livro The Shadow of a Great Rock: A Literary Appreciation of the King James Bible, de Harold Bloom, e que só será publicado em Setembro,  o blog da «The New York Review of Books» publica um texto breve onde Bloom explica por que motivos o livro de Jonas é o seu livro preferido da bíblia.

Nobody comes out looking very impressive from the book of Jonah, whether God, Jonah, the ship captain and his men, or the king of Nineveh and his people. Even the gourd sheltering Jonah from the sun comes to a bad end. There is of course the giant fish (not, alas, a whale) who swallows up Jonah for three days but then disgorges him at God’s command. No Moby Dick, he inspires neither fear nor awe.

[…]

Jonah’s book is magnificent literature because it is so funny. Irony, even in Jonathan Swift, could not be more brilliant. Jonah himself is a sulking, unwilling prophet, cowardly and petulant. There is no reason why an authentic prophet should be likable: Elijah and Elisha are savage, Jeremiah is a bipolar depressive, Ezekiel a madman. Paranoia and prophecy seem to go together, and the author of Jonah satirizes both his protagonist and Yahweh in a return to the large irony of the J Writer, whose voice is aristocratic, skeptical, humorous, deflationary of masculine pretense, believing nothing and rejecting nothing, and particularly aware of the reality of personalities.

The prophet Jonah, awash with the examples and texts of Isaiah, Jeremiah, and Joel, rightly resents his absurd status as a latecomer sufferer of the anxiety of prophetic influence. Either Nineveh will ignore him and be destroyed, making his mission needless, or, if it takes him to heart, he will prove to be a false prophet. Either way his sufferings are useless, nor does Yahweh show the slightest regard for him. Praying from the fish’s belly, he satirizes the situation of all psalmists whosoever.

É impossível não pensar no Evangelho segundo Jesus Cristo. Fazem falta, hoje, profetas como estes.

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