o secularismo é uma cena que… a nós não nos assiste.

Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o único odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em ortographia simplificada, mas a pagina mal escrita, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a ortographia sem ipsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

FP

Esta semana fica marcada, quanto à literatura portuguesa, por dois factos relevantes: 1) a publicação de mais um vídeo patrioteiro sobre os feitos da nação, e, 2) o lançamento da petição “find the trunk”, visando encontrar a arca de Fernando Pessoa e promover a sua aquisição pública. Parece-me que os dois estão fatalmente ligados.

Um mal-entendido interpretativo (que apontei aqui) desencadeou uma onda nacional de indignação, bem reveladora da inépcia generalizada que revelamos ao lidar com metáforas, e que espelha a necessidade de um investimento mais sério no ensino da literatura. O último produto artístico desse mal-entendido é esta magnífica montagem, onde, entre Mourinho e Carlos Paredes, uma voz off vai enumerando em inglês as jóias da coroa. Este tipo de comemorações da ‘identidade lusitana’ começa a tornar-se um pouco repetitivo,  mas nem por isso menos digno dos tempos áureos da FNAT. Acontece que nenhum dos feitos celebrados (casamento entre pessoas do mesmo sexo incluído) pode conferir maior solvência às finanças públicas, pelo que, naturalmente, não será aceite como garantia de capacidade de cumprimento de obrigações bancárias. E embora isto possa parecer óbvio, esconde algumas das lições mais significativas a que nos é possível aceder: não adianta fugir da literatura pela porta dos fundos, porque, mais cedo ou mais tarde, ela apanha-nos, e despe-se à nossa frente, queiramos ou não.

Ou, por outras palavras:

A ideia de que uma entidade como pátria pode ser definida como uma língua, que goza de larga aceitação, representa em Portugal uma vingança sobre o fenómeno conhecido por «descolonização»: saímos de Angola, mas deixámos lá a língua de Herberto Helder, quiseram torcer-nos o pescoço, mas deixámos aos japoneses um par de cantigas do rei D. Sancho I e o conceito de «tempero». Repetimos assim para nós próprios a exclamação satisfeita que com melhores razões Winston Churchill tivera: What a chicken, what a neck! […] a nossa produtividade industrial será baixa (e as nossas casas de banho sujas), mas eles não têm Os Lusíadas. Eles, claro, não têm Os Lusíadas. Mas desse facto trivial e sem remédio não se pode estabelecer uma correlação com a exuberante produtividade de certas economias, para não falar da limpeza imaculada das suas instalações sanitárias (será que se deve a terem eles Milton, porventura também o inventor do método epónimo de desinfecção?). Claro está, os países não têm coisa nenhuma, ou têm coisas num sentido especial de «têm».

(Miguel Tamen, pref. a Artigos Portugueses, Lisboa, assírio&alvim, 2002, pp. 10-11)

O mal-estar que parece provocar em nós uma alegada “falta de reconhecimento” ignora, deliberadamente, o despudor com que durante anos – e ainda hoje – nós próprios, e conscientes disso, substituímos o trabalho de pessoas com nacionalidade portuguesa por ícones ou caricaturas de  uma identidade nacional, pouco preocupados em ver o que estava diante de nós – tantas vezes coisas notáveis -, com a ambição de construir monumentos imateriais a uma ideia de “Portugal”. Não achámos nunca que pudesse ter grande interesse estudar Camões pela excelência da sua poesia, mas pelo que a sua poesia representava para o (inchadíssimo) ego nacional. Pouco nos importa que os estaleiros de Viana encerrem, que a nossa frota pesqueira tenha sido quase toda ela abatida com financiamento comunitário nos últimos vinte anos, ou que as cadeias de distribuição condenem à miséria, com o beneplácito dos sucessivos governos, as produções agrícolas familiares, desde que a nossa gastronomia seja considerada património imaterial da humanidade.

Reconheço espírito na iniciativa de Nuno Hipólito para “recuperar” a arca de Pessoa. Desde um ponto de vista patrimonial ou museológico, faz algum sentido colocar ao acesso da população em geral um objecto com o valor simbólico deste. Em boa medida, porque o artefacto é um atractivo interessante para os miúdos das escolas, e um bom pretexto para lhes explicar os modos de trabalho de Pessoa e os pecados da edição ao longo do século XX.

Mas não consigo, por muito que me esforce, aderir à argumentação que oferece esta iniciativa como uma causa nacional, defendendo-a como necessária porque “Portugal, enquanto nação, precisa de um símbolo tão forte quanto este”, e como um factor de “identidade universal” (seja lá isso o que for). É demasiado ingénuo – e também por isso, admito, enternecedor – pensar que adquirir uma arca de madeira vazia significa alguma coisa para o panorama humanístico e literário em Portugal ou (valha-nos deus) no mundo. Faz-me lembrar o fundo de ironia que perpassa a iniciativa de colocar críticos e autores a dormirem na cama de Fernando Pessoa, quando tantos continuam a dormir em cima da obra de Fernando Pessoa. Ou quando o orçamento de estado continua a não alcançar a fasquia do 1% (sim, um por cento) para a Cultura. Ou enquanto os titulares de grau de licenciado ou mestre pelas faculdades de letras continuam a fornecer mão-de-obra barata a hipermercados.

Cada vez gosto mais do velho do restelo.

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