Não somos detectives.

Não quero parecer obsessivo com este assunto da esquizofrenia da partilha de informação em redes, mas, depois da polémica discussão do projecto-lei que consagra, em França, o droit à l’oubli numérique, leio, hoje mesmo, no JN, que foi criada, há um ano, a primeira empresa especializada em “verificar nas redes sociais o passado de candidatos a empregos”: “Tudo o que foi dito nos sete anos anteriores à candidatura é escrutinado para verificar a idoneidade dos possíveis funcionários”.

Não posso dizer que me surpreenda. Talvez estranhe o facto de apenas agora ser notícia, ou a pouca expressão que o sector assume, para já.

“Não somos detectives”, diz Max Drucker, director-executivo da Social Intelligence, ao jornal norte-americano. “Toda a informação que juntamos esta disponível publicamente na Internet”, garante o responsável da empresa.

Não consigo, contudo, deixar de me sentir profundamente incomodado quando penso na gratuitidade com que se promove a introdução de dados na rede. O argumento de que é possível salvaguardar informação sobre a vida privada parece-me, cada vez mais, uma anedota. A rede acabou com a vida privada como a conhecíamos, simplesmente. Uma rede onde nada pode, realmente, ser apagado, onde tudo é absolutamente à jamais desde o momento em que é divulgado e se aloja, potencialmente, em milhões de terminais. Onde o comentário de circunstância ou uma resposta marginal recebem o mesmo valor, a mesma intensidade ontológica de uma declaração perpétua: para sempre. As possibilidades de decidirmos acerca do nosso passado são cada vez mais remotas. Não posso ser senão quem fui. Depressa, vivemos imersos num suplício tantalógico, feito de uma repetição sucessiva, inalterável e lapidar do mesmo. Já não está nas nossas mãos reinventar o futuro das nossas vidas, na medida em que isso signifique um corte com o que fomos. Somos todos cadastrados por delito de opinião.

E, o que é pior, por vontade própria.

Quase sem dar por isso, somos todos vítimas da lógica wikileaks. Independentemente do que tenhamos lançado online a nosso respeito, está em causa salvaguardar o direito à integridade inviolável da memória, por um lado, e, por outro, à manutenção de um espaço público enquanto tal: suficientemente aberto para que possamos conversar sobre nós e sobre o que pensamos sem um dossier com uma plasmação do  nosso passado. Infelizmente, tanto uma como outra não cabem na estreita capacidade reflexiva da rede: como observou, com uma acuidade notável, Slavoj Zizek, vivemos na época do cinismo universal. E a nossa vergonha por tolerarmos um poder tal sobre todos nós é uma vergonha que partilhamos com um prazer sádico, ao torná-la pública, publicitada. Fomos devorados pelo jogo que julgáramos ter inventado, e agora, sem um espaço público com a dignidade que merece essa designação, chafurdamos alegremente na tragédia de um tempo sem interior.

Não creio que esteja a ser romântico, não creio que esteja a exagerar. Fizemos, voluntariamente, aquilo que dificilmente alguma máquina de guerra ou serviços de inteligência teriam conseguido fazer a esta escala. Mais: fizemo-lo acreditando que estaríamos mais próximos uns dos outros, assim. Nunca menos. Ao reduzir “o que vale a pena” a categorias pré-definidas espaçamo-nos mais ainda, isolados em rótulos inabitáveis e amorfos. O resultado está à vista. Mas afinal, de que estávamos à espera? Nós preenchemos a ficha. Eles limitam-se a fazer uso dela. “Não somos detectives”.

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