uma voz negra, muito negra.

Desapareceu, ontem, Amy Winehouse. Julgo que devo um pedido de desculpas por ter teimado, até recentemente, que o comboio descendente fazia parte da obra desta mulher. Não quis acreditar que a voz de Back to Black não tinha gestores de imagem que administrassem a conduta sua pessoal. Não quis acreditar que não havia uma equipa nos bastidores de um fenómeno musical à escala planetária como Amy, uma equipa que definisse limites para os excessos de Amy. Não me pareceu verosímil que a locomotiva fosse, afinal, um cometa tão isolado a ponto de poder acontecer isto. Insisti que o decadentismo performativo havia sido assimilado pelo horizonte de expectativas, e já fazia parte, como carimbo de autenticidade e singularidade de cada actuação, do próprio ethos dos concertos, que, assim, se elevavam à categoria de happenings. Tudo o fazia crer. A cobertura mediática centuplicou depois das primeiras quedas em palco, a visibilidade pública alcançou uma projecção sem precedentes, em todo o mundo havia milhares de pessoas, em qualquer concerto seu, de máquina de filmar ou telemóvel em punho, à espera de captar o momento que no youtube faria sucesso no dia seguinte. A distância entre o estrelato e o mito estava a ser superada.

Afinal, não era nada disso. A fraqueza era, afinal, humana. Demasiado humana. Perdeu-se uma grande voz, uma voz poderosíssima.

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