portuguese university press?

O Miguel Vale de Almeida escreve aqui a propósito da inexistência de imprensas universitárias em portugal, convocando, como contraponto, o caso da University of California e da University of California Press, para concluir pela necessidade de uma “Imprensa Universitária Portuguesa”.

O tema é, parece-me, de uma importância tal que não pode continuar a ser adiado como até agora.

A verdade é que o que temos, neste momento, é uma miríade de pequenas “imprensas universitárias”, muitas vezes de natureza local, e que, verdadeiramente, não o são, embora o sejam, funcionalmente: da Angelus Novus à Colibri, passando pela Granito, pela Cosmos, pela Gulbenkian, pela Deriva, pelas ed 70, pela incontornável INCM ou até pela Relógio d’Água, todas cumprem, cada uma à sua maneira, aspectos de uma Imprensa Universitária, as mais das vezes, em colecções específicas para esse efeito. Todas elas, de uma ou de outra forma, servem de montra de trabalhos académicos e de divulgação científica/cultural ou artística, dando a conhecer o trabalho realizado nas universidades portuguesas. Em quase todas elas, infelizmente, um livro com mais de quinze anos é um livro difícil de arranjar, e um livro esgotado é, quase sempre, um livro perdido para sempre para a nossa biblioteca. É aí que se sente mais agudamente, a meu ver, a falta de imprensas universitárias.

Quando comecei a licenciatura na UP, era possível encontrar todos os livros do catálogo da gulbenkian numa pequena livraria anexa aos serviços de acção social da universidade. Naquele sítio, sabíamos que podíamos comprar os livros da FCG com cinquenta por cento de desconto sobre o preço de capa. Sim, cinquenta por cento de desconto.

Penso que é esta a vocação de uma imprensa universitária: proporcionar uma ampla gama de trabalhos académicos a um público alargado e por um preço reduzido (eventualmente, através de condições especiais para estudantes), sem o espartilho dos critérios comerciais, mas tendo em vista a satisfação das necessidades lectivas, científicas, de investigação e divulgação do trabalho feito. Acima de tudo, tornar o livro mais acessível, isto é, mais disponível e mais barato. Não creio, ao contrário do Miguel Vale de Almeida, que essa função pudesse ser desempenhada por uma enorme “Imprensa Universitária Portuguesa”. Nós não somos a Califórnia: há mais identidades universitárias específicas e interesses académicos próprios do Mondego para cima do que nos 58 condados da Califórnia. O mais certo é que um tal colosso editorial acabasse por publicar, na maior parte do tempo, os trabalhos produzidos nas universidades da grande lisboa, reservando para as margens do programa de publicações um ou outro estudo das universidades “do resto do país”. E digo-o porque já estamos habituados a essa música, noutros bailes.

Creio que as estruturas de imprensas universitárias deveriam ser pensadas ao nível das universidades. Porventura, podia até ser estudado um projecto supra-regional: porque não agrupar a UP, a UTAD e a UMinho numa Imprensa Universitária única?

É verdade que a UP já deu passos a este respeito, com a UPorto editorial. Aqui, porém, a principal vantagem é, também, o maior obstáculo: o superior padrão material das edições, por um lado, eleva o preço dos títulos acima do que seria de esperar de uma imprensa universitária, e, por outro lado, critérios de visibilidade institucional e comunitária que não cabe aqui discutir fazem com que raramente as obras publicadas sirvam um público – ainda que académico – , minimamente amplo. Mesmo assim, talvez seja um razoável ponto de partida.

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