hermenêutica e desconstrução.

O exercício hermenêutico, definido por Hans-Georg Gadamer como “a compreensão do todo de acordo com os termos do detalhe e a compreensão do detalhe nos termos do todo”, onde “a antecipação do significado no qual o todo se perspectiva se torna a própria compreensão quando as partes que são determinadas pelo todo determinam também, elas mesmas, a totalidade” (Truth and Method, 2004 : 291), encontra a sua realização plena no exercício do revisionismo, mediante o qual se propõe curto-circuitar o pacto entre o testemunho e a interpretação, através da resignificação dos termos à luz de um novo e aleatório princípio unificador. Jacques Rancière já tinha alertado para o potencial criativo deste processo no que toca à construção da narrativa histórica e da narrativa ficcional (Les Noms de l’Histoire: essai de poétique du savoir). Vítor Gaspar, ontem, demonstrou o seu poder de tracção política, ao dar uma magistral lição de retórica hermenêutica aplicada: aqui (vejam mesmo, palavra de honra que vale a pena. até queria colocar o video aqui, mas não consegui)

Chamo a atenção para o subtil manusear do recorte frásico, a evocação e reconstrução da “omissão”, o gesticular esquemático e convincente, os “isto é’s”, a re-hierarquização do discurso em análise (“foi usada a expressão ‘desvio’, foram ditas algumas palavras, após as quais apareceu ‘colossal’…”), o jogo de ‘recentramento’ do significado(“a minha interpretação da expressão é… esta versão é da minha pura responsabilidade, eu não tenho nenhuma informação autêntica das palavras que foram proferidas entre ‘desvio’ e ‘colossal’ “), o tópico da mais-valia da elaboração hermenêutica (“mas esta versão agrada-me particularmente”). Digno de registo nos anais da arte de persuadir.

Nada disto é, obviamente, novidade nenhuma. Mas confesso que nunca tinha visto um uso tão pernicioso e ostensivo desta estratégia de manipulação. Para um político que, até há duas semanas, era elogiado pelo carácter técnico (e aideológico) da sua visão financeira, não está nada mal… Mas é preocupante pensar que a necessidade de reconfigurar os discursos do outro deste modo emerge, regra geral, em momentos históricos de fractura e disrupção, na iminência de crises humanas profundas. Esta hermenêutica é, quase sempre, a fita-cola a juntar os cacos do vaso chinês, enquanto a mãe não percebe que já se partiu.

Outra coisa muito diferente, mas não menos alarmante, é a perda da consciência de diferença entre o sentido literal e o sentido figurado. É claro que devia ser uma coisa óbvia, a dispensar qualquer nota explicativa, mas a verdade é que o downgrading do rating da dívida portuguesa inaugurou o capítulo do “portugal é lixo”, e não havia ninguém, nos últimos dias, que não fizesse a sua entrada em directo sem a deixa. Curta e grossa. Julgo perceber nisto um certo escapismo para alguma coisa que muitos de nós andavam a querer dizer há muito tempo, e só alguns se atreviam ao dislate.

Desta vez o meu herói é o presidente da euronext lisboa, que veio fazer com os pivôs e comentadores o que eu gosto de ver fazer com os estruturalistas. Basicamente, pô-los na linha, que é como quem diz, pôr os pés assentes no chão. Não é que eu não aprecie a exploração das virtualidades da metáfora para a prática jornalística, que aprecio, e muito. Quando não é medíocre, como, infelizmente, é o caso. Mais para a frente posso escrever aqui o que acho que eles deviam dizer que é lixo, para fazerem bom uso da dica dos senhores da moody’s.

Obrigado, vítor, obrigado, senhor presidente da euronext. sem vocês, o que seria de nós.

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