world literature.

Ontem lembrei-me de quando se falava dos imigrantes de Leste em Portugal, dos médicos, engenheiros e arquitectos que, de tão mal pagos nas suas Ucrânias e Rússias, vinham para cá trabalhar na construção civil ou em limpezas, e ainda conseguiam enviar algum para as famílias.

Depois dei-me conta de que isso começa a ser uma imagem do passado: agora, estamos nós nesse lugar tão estranho a um século vinte e um – não faltam licenciados e mestres por universidades portuguesas a procurar trabalho não-especializado lá fora, à vista do fantasma do desemprego eterno e do monstro do “excesso de qualificações”.

Foi quando encontrei isto, e compreendi até onde chegámos. “Como esconder a idade no curriculo vitae” [sic].

Hoje li este artigo, sobre os call centers na Índia, e tudo encaixa. Os jovens operadores de CC em Delhi trabalham para multinacionais com carteiras de clientes em diversos países, mas cujas fatias maiores se encontram em regiões anglófonas. A partir de Delhi, explicam a uma dona-de-casa em Los Angeles, California, como montar e pôr a funcionar correctamente a impressora acabada de comprar, ou interrompem o jantar de um australiano para o tentar convencer a aderir a um tarifário telefónico mais vantajoso.

Taken together, the millions of calls they make and receive constitute one of the largest intercultural exchanges in history.

[…] New hires must be fluent in English, but many have never spoken to a foreigner. So to earn their headsets, they must complete classroom training lasting from one week to three months. First comes voice training, an attempt to “neutralize” pronunciation and diction by eliminating the round vowels of Indian English. Speaking Hindi on company premises is often a fireable offense.

Next is “culture training,” in which trainees memorize colloquialisms and state capitals, study clips of Seinfeld and photos of Walmarts, and eat in cafeterias serving paneer burgers and pizza topped with lamb pepperoni. Trainers aim to impart something they call “international culture”—which is, of course, no culture at all, but a garbled hybrid of Indian and Western signifiers designed to be recognizable to everyone and familiar to no one. The result is a comically botched translation—a multibillion dollar game of telephone. “The most marketable skill in India today,” the Guardian wrote in 2003, “is the ability to abandon your identity and slip into someone else’s.”

Translatability: talvez seja o que se procura num candidato. A capacidade de ser qualquer coisa, ou uma coisa qualquer, através dessa “cultura” que não é, de facto, cultura nenhuma. De um momento para o outro, somos todos personagens de literaturas do mundo.

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