How silly and removed these discussions are from the job of writing and the joys of reading!

Ao ler este excelente artigo do guardian, obriguei-me a rever um conjunto de posições sobre coisas que, por hábito, não questionamos.

Nos últimos tempos, graças a diversas influências, adquiri o costume de me perguntar, de cada vez que projecto escrever o que quer que seja, colocar a mim próprio uma pergunta simples: A quem irá servir o que sair daqui?

A princípio não é fácil resistir à tentação de contraverter a questão: evocar um tranquilizador “a todos aqueles que decidirem abordar este campo de trabalho, ou áreas conexas”, o que equivale, em grande medida, a “a todos aqueles que decidirem abordar este assunto, para saberem que alguém já o abordou, e mudarem de rumo, preferencialmente não o bastante que impeça de recorrerem ao trabalho que terei feito, de modo a que possam, ainda assim, citá-lo”. Mas, com o tempo – e com a aceitação do ridículo que abraça esta tautologia – , acabamos por estreitar a relação com as fragilidades e artimanhas com que vamos muralhando posições, e, progressivamente, as coisas revelam-se na timidez com que laboriosamente as escondemos: é mais ou menos evidente que muito não serve rigorosamente a ninguém, e um pouco há-de servir a outros que pretendam dizer quase a mesma coisa. Mas raramente, muito raramente, nos preocupamos em dizer alguma coisa que aproveite a alguém. Isso não é forçosamente um problema. A funcionalidade, estamos fartos de saber, não é um critério indispensável. Mas pode começar a ser espinhoso, se acaso quisermos, ou sentirmos necessidade, de uma legitimação em nome do bem público.

Está satisfatoriamente naturalizado o costume de queixarmo-nos dos fracos hábitos culturais e literários dos nossos contemporâneos. Como naturalizado está também o queixume quanto à escassa adesão ou ao insuficiente interesse pelos debates literários ou intelectuais, reivindicações genericamente próximas da do subinvestimento nas humanidades, tópicos que, em conjunto, compõem o ramalhete sempre à mão e para uso doméstico da “crise das humanidades”. Vale a pena pensá-lo à contraluz do argumento de Sam Jordison, no dito artigo.

Se, por um lado, os debates sobre literatura não conquistam público exterior ao conjunto dos indivíduos que disputam posições desse debate – ao contrário, por exemplo, do que acontece com as ciências biológicas, que contam, para além de secções especiais nos jornais generalistas e destaques pontuais a assinalar esta ou aquela “descoberta”, a  rúbrica “cultura” não passa de um espaço destinado às últimas novidades editoriais e a alguma notícia que envolva as palavras livros, escritores ou faculdades de letras, estas últimas, aliás, mal se vendo – , por outra parte, reconheçamo-lo, não se pode dizer que não poupamos esforços para fornecer elementos úteis a públicos mais alargados, como, por exemplo, os leitores de ficção cujas ocupações profissionais não se cruzam, nunca, com a literatura ou as artes. Talvez se trate, admito-o, de uma questão de estilo. Por razões que se prendem com tradições académicas entretanto esquecidas, ficámos presos a um registo atravessado pela secura, pela assertividade aparentemente aproblemática, por uma objectividade esculpida como filigrana, entre presunções de rigor e tiques de sacerdócio. A tal ponto que:

Kellogg’s argument [resumido no título deste post] reminds me of the story of Ted Hughes switching from English to Archaeology and Anthropology at Cambridge. The nature poet claimed to have been struggling with his weekly essay, when he fell asleep and dreamt that a giant burnt fox approached his desk: “Then it spread its hand – a human hand as I now saw, but burned and bleeding like the rest of him – flat palm down on the blank space of my page. At the same time it said: ‘Stop this – you are destroying us.'”

Já muita tinta correu a propósito das consequências da crítica para o texto sobre o qual ela elabora. Mas a questão, aqui, é significativamente outra: como usar as discussões sobre literatura – permitirão que leiamos melhor, ou estaremos, uma vez mais, perante uma promessa sem realização?

“It’s a personal thing. There are some people who are happy to use a watch and don’t care to know how it works. How this magical thing tells you the time. I’m one of them. But when it’s a text, I want to know how it works. Perhaps some people feel about texts the way I feel about watches. As long as you have the emotional impact, you don’t want to go further than that, and that’s fine. Some people like to take them apart and understand them more and some people want to leave them whole.”

A principal causa do desfecho aporético deste debate, tão bem ilustrado nesta resposta de Sarah Dillon, é a insistência em incluir na definição (de crítica literária, de estudos literários) a coisa a definir: não é fácil, de facto, explicar o que é o trabalho da crítica sem envolver dizer que é o estudo do modo como funciona a literatura. E, contudo, é precisamente esse erro lógico que nos mantém afastados de uma definição válida e funcional do nosso trabalho, e, consequentemente, bloqueia qualquer linha de fuga capaz de romper com a gravitação orbital em torno do mesmo: uma rosa é uma rosa, é uma rosa, é uma rosa… Ao mesmo tempo, conscientes dessa fragilidade, recobrimos a frase com um mosaico complexo de preconceitos: algo paralelo à lógica do “se não os consegues vencer, junta-te a eles”, surge, aqui, o “se não o consegues superar, torna-o mais complicado”:

“What would the point of it be? Why would anyone want to make it more incomprehensible?” […] but I’ve always had the impression that weaker academics try to hide behind thick layers of baffling theory and opaque prose.

Não é de estranhar, depois disto, que não haja fenómenos de corridas às estantes das livrarias a procurar livros de crítica literária, actas de colóquios ou monografias académicas. Se é verdade que a mediocridade gosta de se ocultar debaixo da blindagem opaca do tecnicismo (o álgido halo tecnicista, que promete redimir toda a incompreensibilidade), ela não deixa de condenar como profana alguma tentativa de dessacralização do discurso (odi profanum vulgus), como não deixa de espelhar a comichão que o pragmatismo mais terra-a-terra de certos anglo-saxónicos provoca na intelectualidade continental. Não é agora o momento de fazer derivar por aí este comentário ao artigo do guardian. Não posso, contudo, deixar de dizer que me parece ser justamente esse o caminho a percorrer: degrau a degrau, descer do altar onde nos colocámos com demasiada ligeireza, ou com excesso de orgulho. Talvez só assim possamos vir a poder manter aberto o diálogo que nos esforçamos por começar, sem compreender que para isso é necessário ceder à espereza da fala. Talvez, então, seja possível tornar menos raras declarações como esta:

I’m also happy to say I’ve had many of my assumptions tickled and challenged. One writer, for instance, raises the fascinating point that Cervantes tried out many of the textual tricks that we think of as “postmodern”. This book of essays is actually fun – and that’s something I’m surprised to write about literary theory.

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