yo soy tony manero.

Em Tony Manero, de Pablo Larraín (2008), um homem de meia idade dedica a vida a encarnar a personagem do John Travolta de Saturday Night Fever. Chile, 1978. Qualquer coisa que se assemelhe ao american dream está muito longe de ser a realidade. Todos os dias Raúl ensaia os passos de dança do actor, ao som de you should be dancing, obsessivamente, compulsivamente, e assiste sem parar ao filme, em salas de cinema já vazias, até saber de cor todas as falas, num inglês balbuciante e sofrido. À noite, dança num pequeno café frequentado pela vizinhança, levando ao limite os escrúpulos com o rigor da performance.

Quando surge a oportunidade, inscreve-se num concurso televisivo de look-alikes da personagem de Travolta no filme. Entre um bom número de candidatos vestidos com o mesmo fato branco e camisa escura com as golas sobre a lapela, todos na casa dos vinte anos, sem uma ruga, cabelo impecável, ele, Raúl. Chega a sua vez, é o penúltimo a ser chamado, e, em directo, o apresentador pergunta-lhe como se chama. A resposta é sempre a mesma, « – Tony Manero». Palmas da assistência. « – E qual é a sua verdadeira profissão?».

Durante um longo silêncio, Raúl hesita. Olha meio perplexo para o público e para o apresentador.

« – Isto.»

Quando vi o filme, senti este diálogo como um forte murro no estômago. Ainda não parou de doer.

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