Quem teve a ideia só pode ser uma ostra, para cuspir uma pérola como esta.

Julgo que foi o Manuel António Pina, aqui, quem começou por chamar a atenção para o ridículo da situação.

Em causa, o anúncio, por parte da UMAR, de ver criminalizadas práticas verbais que tenham como propósito susceptibilizar o destinatário, focando expressivamente aspectos da sua corporalidade, o que corresponde, grosso modo, ao piropo.

Como já têm dito, a medida visa, no essencial, copiar o que há de pior na América puritana, introduzindo um elemento de suspeição e policiamento constante de todos por parte de todos (à entrada dos elevadores brasileiros encontra-se sempre uma pequena placa a avisar para o risco de proferir anedotas susceptíveis de serem consideradas racistas, com alguém por perto a ouvir…).

Boa parte da argumentação a favor desta disposição, como a que exara (apaixonadamente) a Fernanda Câncio, decorre directamente dos lugares comuns da “nova esquerda”, com narrativas identitárias urbanas e altamente estandardizadas a servir de substrato a uma lógica retorcida e enviesada de reivindicação. Muito lyotardianamente, percebe-se que estamos perante grupos esvaziados de poder crítico, e que, por variadas razões, se sentem na necessidade de deflagrar “questões fracturantes” (…!), não tendo, ainda, percebido que estão apenas a levantar alguma poeira sem, verdadeiramente, mudar seja o que for. Órfãos de causas, viram-se, desesperadamente e sem grande critério, para o que têm à mão. Percebe-se que, no fundo, não têm vontade de enfrentar as questões verdadeiramente fracturantes, que são, como não podia deixar de ser, as questões estruturantes, e, por isso, se contentam em propor o estatuto de crime público para senhores menos discretos que passem na rua a lançar  frases menos próprias.

Entretanto, no aventar, o João José Cardoso deixa claro o ridículo da proposta:

Preservemos o direito de Leonor ir descalça para a fonte sem com isso servir de tema para motes e dichotes, tipo tão linda que o mundo espanta, ou comentários sobre a sua cinta de fina escarlata e o sainho de chamelote. 

Já chega. Acabemos de vez com esta pouca vergonha, embora alguns cam(i)onistas possam assegurar que Leonor “estava mesmo a pedi-las“. Deixem-nas em paz, formosas e não seguras. Haja respeito.

A meu ver, o que retiro daqui é a incapacidade dos “novos feminismos”, como o que sustenta a UMAR, dissimularem a bateria de preconceitos de género que os enformam. A circunstancialidade da medida reveste-se de uma aura de ingenuidade que nenhuma retórica “emancipatória” consegue apagar: trata-se de algo tão casuístico que, simplesmente, não tem qualquer lugar na lei. Desde logo, porque decorre de uma aceitação de critérios para a aferição da presença de “ofensivo” que está longe de ser pacífica. Só consigo interpretar como toada de silly season alguma tentativa de aferir padrões de ofensa quanto à modulação dos assobios. Além disto, haveria que tomar em consideração o grau de intencionalidade e premeditação dos prevaricadores, o que me faz imaginar um julgamento por crime de piropo como uma piada. E o anúncio Coca-cola light, também iria parar à vara do tribunal?

Agora a sério: é preocupante pensar que muitas das áreas académicas (hoje) hegemónicas no panorama europeu se encontram colonizadas por pessoas que pensam (mais ou menos) assim.

Mas chega de brincadeira: toca a ver uma lição sobre emancipação sexual como deve ser.

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