Durante o Marxism 2009 em Bloomsbury Slavoj Žižek…

Durante o Marxism 2009, em Bloomsbury, Slavoj Žižek apresentava uma ideia que me pareceu, desde que o ouvi pela primeira vez, absolutamente indispensável: ser marxista, hoje – e, com mais propriedade, ser revolucionário – , significa ser seriamente crítico dos regimes que se oferecem com demasiada facilidade como a caminho da utopia. “Our only help to Chavez and others is to be, when they deserve, ruthlessly critical to ourselves, that’s how we treat them seriously”.

Noam Chomsky sabe-o perfeitamente, e é com muita satisfação que o confirmo.

Não posso deixar de observar como me senti incomodado ao ver, esta manhã, o discurso de HC em Caracas. Dirigindo-se aos venezuelanos a partir de uma colossal janela no palácio presidencial – num claro remake da Praça de São Pedro – com pompa apocalíptica, elaborava metaforicamente sobre a doença que enfrenta, com o vocabulário revolucionário bolivariano. A cena, apenas por si, é confrangedora, e razões não faltam, desde o culto da personalidade que veicula ao achincalhamento de um ideário emancipador desbaratado em alegorias a uma hérnia cancerosa.

Mas o pior, como antes percebeu Chomsky, é o fosso ontológico que se cria deste modo entre HC e os venezuelanos, com uma certa erosão da importância dos factos no mundo real. E uma forma de o denunciar é, sem dúvida, apelar à libertação de um presos político… que sofre, também, de doença cancerosa. O caso de María Lourdes Afiuni é um pretexto de peso para questionar a concentração crescente de poderes na Venezuela.

Como é evidente, e para não dar motivo a mal-entendidos, o que fica dito não exclui reconhecer a excepcionalidade de circunstâncias actualmente vigentes na Venezuela, que, entre gestos políticos concretos muito questionáveis (leia-se aqui affair Kadhafi e más companhias europeias), se encontra, num horizonte menos restrito, a dar passos de gigante rumo a uma menor dependência da América do Sul face à América do Norte.  Não apenas economicamente, como é óbvio. E, a talhe de foice, mas para que conste, a demarcação cultural que se encontra em processamento, e que Chomsky já reconheceu em diversos momentos, surge-me, ainda, como um magnífico exemplo da têmpera que tem faltado a países europeus periferizados. 

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