Fazer a mesma treta, gastando uma espécie de editorial.

Num artigo publicado recentemente no Sol – para o qual dois amigos me chamaram a atenção -, José António Saraiva, director desse semanário, organiza um cortejo de disparates que bem poderia ser um catálogo de inutilidades para uso de comentadores de telejornais. Ficariam todos muito bem servidos, e iriam, com toda a certeza, rever-se nas falsas evidências que o jornalista (?) faz desfilar.

No estilo medíocre dos comentadores a soldo, habituados a debitar uma mensagenzinha inócua de pacotilha do “vivemos-acima-das-nossas-possibilidades-e-agora-bla-bla-bla-pardais-ao-ninho”, JAS defende que, considerando que “as empresas têm de ser aliviadas, porque criam emprego”, e “os pobres não podem ser mais sobrecarregados” (fica por saber que definição de ‘pobres’ tem JAS em mente), conclui, em meio tempo, “tem de ser, pois, a classe média a pagar a crise”.

Devo confessar, sem qualquer ironia da minha parte, que, durante algumas linhas, julguei, sinceramente, estar JAS a produzir uma desconstrução do mais provinciano discurso dos nossos opinion makers, em tom sarcástico, entre coisas como” há que aliviar a burocracia e facilitar a vida aos que investem” e “na classe média esbanjam-se dinheiro e recursos de uma forma às vezes chocante”, e que iria, a qualquer momento, inverter a argumentação, para ridicularizar impiamente o que acabava de reproduzir.

Debalde.

Quando chegamos a coisas como “Em vez de um Mercedes E, um Mercedes C”, “por que não optar por um honesto espumante Raposeira ou Cabriz em vez de champanhe Cristal ou Moët & Chandon”, ou “Por que se bebe água Vittel, Vichy ou Voss, e não água do Luso, do Vimeiro, das Pedras ou do Castelo?”, percebe-se, inequivocamente, que já não é possível voltar atrás.

O mais triste é perceber que pessoas deste calibre se encontram em posições estratégicas na estrutura do poder mediático, e, o que é pior, representam uma boa parte das classes dirigentes, presas a concepções da sociedade radicalmente desfasadas da realidade, sem uma gota de verdade, e que põem e dispõem com base em ideias como estas, sem pés nem cabeça.

Felizmente, vai havendo ainda, nos espaços de informação, alguém que resiste ao gregarismo reinante, e se atreve a pensar por si. Irei guardar, para memória futura, a crónica no Notícias do Manuel António Pina, de 1.07:

Com o corte de 50% dos subsídios de Natal, o novo Governo tenciona obter 800 milhões de euros, saídos (na verdade nem lá chegarão a entrar) dos bolsos de trabalhadores e reformados.

E para onde irá tanto dinheiro? Com mais 800 milhões poupados em “acomodações” na despesa do Estado que “o senhor ministro das Finanças detalhará nas próximas semanas” (preparemo-nos para o pior, designadamente para mais cortes nos apoios sociais e na saúde), servirá para compensar os 1 600 milhões que o Estado deixará de cobrar com a redução de 4% da TSU das empresas. O que é o mesmo que dizer que 50% dos subsídios de Natal dos trabalhadores e reformados, mais as “acomodações” ainda a anunciar, irão parar às contas bancárias dos empresários. Será reconfortante ver passar um Ferrari (pelo menos em regiões deprimidas como a do Vale do Ave) e imaginar que talvez uma porca de um daqueles pneus seja o nosso subsídio de Natal.

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