Updates from Julho, 2011 Toggle Comment Threads | Atalhos de teclado

  • pedrolopesalmeida 20:19 on 31/07/2011 Permalink | Responder  

    o édipo falhado de santo tirso. 

    Arma encravada salva pai da ira do filho, via JN

     
  • pedrolopesalmeida 17:52 on 29/07/2011 Permalink | Responder  

    o secularismo é uma cena que… a nós não nos assiste. 

    Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o único odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em ortographia simplificada, mas a pagina mal escrita, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a ortographia sem ipsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

    FP

    Esta semana fica marcada, quanto à literatura portuguesa, por dois factos relevantes: 1) a publicação de mais um vídeo patrioteiro sobre os feitos da nação, e, 2) o lançamento da petição “find the trunk”, visando encontrar a arca de Fernando Pessoa e promover a sua aquisição pública. Parece-me que os dois estão fatalmente ligados.

    Um mal-entendido interpretativo (que apontei aqui) desencadeou uma onda nacional de indignação, bem reveladora da inépcia generalizada que revelamos ao lidar com metáforas, e que espelha a necessidade de um investimento mais sério no ensino da literatura. O último produto artístico desse mal-entendido é esta magnífica montagem, onde, entre Mourinho e Carlos Paredes, uma voz off vai enumerando em inglês as jóias da coroa. Este tipo de comemorações da ‘identidade lusitana’ começa a tornar-se um pouco repetitivo,  mas nem por isso menos digno dos tempos áureos da FNAT. Acontece que nenhum dos feitos celebrados (casamento entre pessoas do mesmo sexo incluído) pode conferir maior solvência às finanças públicas, pelo que, naturalmente, não será aceite como garantia de capacidade de cumprimento de obrigações bancárias. E embora isto possa parecer óbvio, esconde algumas das lições mais significativas a que nos é possível aceder: não adianta fugir da literatura pela porta dos fundos, porque, mais cedo ou mais tarde, ela apanha-nos, e despe-se à nossa frente, queiramos ou não.

    Ou, por outras palavras:

    A ideia de que uma entidade como pátria pode ser definida como uma língua, que goza de larga aceitação, representa em Portugal uma vingança sobre o fenómeno conhecido por «descolonização»: saímos de Angola, mas deixámos lá a língua de Herberto Helder, quiseram torcer-nos o pescoço, mas deixámos aos japoneses um par de cantigas do rei D. Sancho I e o conceito de «tempero». Repetimos assim para nós próprios a exclamação satisfeita que com melhores razões Winston Churchill tivera: What a chicken, what a neck! […] a nossa produtividade industrial será baixa (e as nossas casas de banho sujas), mas eles não têm Os Lusíadas. Eles, claro, não têm Os Lusíadas. Mas desse facto trivial e sem remédio não se pode estabelecer uma correlação com a exuberante produtividade de certas economias, para não falar da limpeza imaculada das suas instalações sanitárias (será que se deve a terem eles Milton, porventura também o inventor do método epónimo de desinfecção?). Claro está, os países não têm coisa nenhuma, ou têm coisas num sentido especial de «têm».

    (Miguel Tamen, pref. a Artigos Portugueses, Lisboa, assírio&alvim, 2002, pp. 10-11)

    O mal-estar que parece provocar em nós uma alegada “falta de reconhecimento” ignora, deliberadamente, o despudor com que durante anos – e ainda hoje – nós próprios, e conscientes disso, substituímos o trabalho de pessoas com nacionalidade portuguesa por ícones ou caricaturas de  uma identidade nacional, pouco preocupados em ver o que estava diante de nós – tantas vezes coisas notáveis -, com a ambição de construir monumentos imateriais a uma ideia de “Portugal”. Não achámos nunca que pudesse ter grande interesse estudar Camões pela excelência da sua poesia, mas pelo que a sua poesia representava para o (inchadíssimo) ego nacional. Pouco nos importa que os estaleiros de Viana encerrem, que a nossa frota pesqueira tenha sido quase toda ela abatida com financiamento comunitário nos últimos vinte anos, ou que as cadeias de distribuição condenem à miséria, com o beneplácito dos sucessivos governos, as produções agrícolas familiares, desde que a nossa gastronomia seja considerada património imaterial da humanidade.

    Reconheço espírito na iniciativa de Nuno Hipólito para “recuperar” a arca de Pessoa. Desde um ponto de vista patrimonial ou museológico, faz algum sentido colocar ao acesso da população em geral um objecto com o valor simbólico deste. Em boa medida, porque o artefacto é um atractivo interessante para os miúdos das escolas, e um bom pretexto para lhes explicar os modos de trabalho de Pessoa e os pecados da edição ao longo do século XX.

    Mas não consigo, por muito que me esforce, aderir à argumentação que oferece esta iniciativa como uma causa nacional, defendendo-a como necessária porque “Portugal, enquanto nação, precisa de um símbolo tão forte quanto este”, e como um factor de “identidade universal” (seja lá isso o que for). É demasiado ingénuo – e também por isso, admito, enternecedor – pensar que adquirir uma arca de madeira vazia significa alguma coisa para o panorama humanístico e literário em Portugal ou (valha-nos deus) no mundo. Faz-me lembrar o fundo de ironia que perpassa a iniciativa de colocar críticos e autores a dormirem na cama de Fernando Pessoa, quando tantos continuam a dormir em cima da obra de Fernando Pessoa. Ou quando o orçamento de estado continua a não alcançar a fasquia do 1% (sim, um por cento) para a Cultura. Ou enquanto os titulares de grau de licenciado ou mestre pelas faculdades de letras continuam a fornecer mão-de-obra barata a hipermercados.

    Cada vez gosto mais do velho do restelo.

     
    • Nuno Hipólito 22:15 on 29/07/2011 Permalink | Responder

      Caro Pedro. Obrigado pela sua opinião relativa à petição que, naturalmente, respeito. Queria só dizer-lhe que não me move nenhuma ingenuidade, mas penso que o acto de salvarmos a arca não é naturalmente compreendido pela geração actual mas será necessariamente punido pelas que se vão seguir. Sim. Pode ser ingénuo e posso estar errado. Mas o meu acto baseia-se (solitariamente) nesse princípio. O nosso principal produto de exportação cultural devia ser Pessoa, mas não é. Mas não quer dizer que não venha a ser. E de sonhos absurdos se faz o futuro.

      • pedrolopesalmeida 00:51 on 30/07/2011 Permalink | Responder

        Estimado Nuno Hipólito, fico muito grato pela visita à piscina, e pelo comentário que lhe merecem as minhas considerações. Podendo embora ter uma opinião um pouco diferente da que expressa relativamente ao significado da iniciativa, estamos absolutamente de acordo quanto ao potencial de exportação da nossa produção cultural. Justamente por isso, creio que não me levará a mal se eu me permitir ver neste projecto uma (boa) metáfora para outras ‘aquisições’ inadiáveis, a bem do interesse público: outras ‘arcas’, a mesma urgência de salvaguardar o futuro dos leitores de português. Um abraço

  • pedrolopesalmeida 16:00 on 29/07/2011 Permalink | Responder  

    ler os outros #1 

     O senhor, no que a festas diz respeito, é grande.

    [comentário de “Anónimo” no kouzaselouzas (SMFeira) a um post sobre a “Viagem Medieval” e o Presidente da CM]

     
  • pedrolopesalmeida 03:02 on 29/07/2011 Permalink | Responder  

    Literatura comparada. 

    Ao ler isto, percebe-se isto.

     
  • pedrolopesalmeida 02:39 on 29/07/2011 Permalink | Responder  

    este blog tem poucas imagens! #1 

    in Casa Chinesa – Mercearia Fina, Rua Sá da Bandeira, Porto.

    Singela homenagem aos críticos do ípsilon, estimulantes naturais para toda a obra, com o nosso muito obrigado.

     
  • pedrolopesalmeida 02:00 on 29/07/2011 Permalink | Responder  

    um nobel no parque. 

    Há quem ache que o lugar de certos professores deve ser apenas o gabinete de faculdade. Há quem ache que o professor não se deve misturar com certas causas. Há, até, quem ache que o professor deve evitar expor certas ideias, a fim de conservar algo como uma forma de “autoridade”, ou algo como uma forma de “rigor científico” ou “isenção”.

    Felizmente, nem todos pensam assim. Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia e professor na Columbia University esteve, na segunda-feira, no parque Retiro de Madrid, com os Manifestantes da Puerta del Sol para expressar a sua solidariedade no Forum Social do 15-M. Quando pensamos no academicismo asfixiante do nosso ambiente universitário, é profundamente consolador lembrarmo-nos que, algures, ainda é possível ouvir uma lição de sapiência sob as árvores do parque, megafone na mão, como se estivéssemos a falar de coisas que são deste mundo.

    Mas, enfim, quem é Joseph Stiglitz, quando comparado com os honoráveis académicos lusitanos?

    (Informam-me agora que apenas por causa do intenso calor ele não vestiu a toga, que trazia de casa, antes de começar a falar. Também tinha levado capelo, mas alguém lhe disse que era melhor dispensá-lo)

    Aqui fica um apanhado, publicado no Portugal Uncut. A Ana Sousa Dias também dedicou a sua crónica no JN ao nobel da economia que foi falar ao parque com os indignados. Dos apontamentos do seu texto, vou reter o momento em que cita Stiglitz, ao dizer

    “Não se pode substituir as más ideias pela ausência de ideias, é preciso trocá-las por boas ideias.”

    É mesmo.

    [No youtube há mais vídeos, alguns com melhor resolução, mas este apanha desde as primeiras palavras.]

     
  • pedrolopesalmeida 01:00 on 29/07/2011 Permalink | Responder  

    Não deve passar despercebida esta chamada de atenção… 

    Não deve passar despercebida esta chamada de atenção da Fenprof. Em reunião com o novo ministro, levantou algumas questões daquelas que muitos gostaríamos, há muito tempo, que fossem devidamente apresentadas. A consolidação do corpo docente universitário é uma delas. É bom saber que há, da parte da Fenprof, percepção dessa necessidade. Outra coisa a incluir neste caderno de reivindicações seria a revisão da ratio docente/estudantes nas faculdades de letras. Já está mais do que na altura de se fazer um lobbying a este respeito, entre as várias faculdades de letras/ciências sociais e humanas.

     
  • pedrolopesalmeida 15:40 on 27/07/2011 Permalink | Responder  

    # ! 

    Está V. Ex.ª a recear outra vez que lhe petrolizem a rica livraria. Não sei donde lhe vem a razão do susto, quando a Europa retrocede a grandes passos para a monarquia, protectora dos livros velhos e dos velhos usos.

    Se, por desventura, em Portugal se conflagrasse uma revolução popular, eu recearia mais que me roubassem a adega do que a livraria.

    Camilo Castelo Branco, carta ao 1.º Conde de Azevedo, de 6 de Junho de 1873

    (apud Mário Gonçalves Viana, Arte de Organizar Bibliotecas Públicas e Particulares (sua organização funcional), Porto, Editorial Domingos Barbosa, 1958)

     
  • pedrolopesalmeida 03:25 on 25/07/2011 Permalink | Responder  

    Não somos detectives. 

    Não quero parecer obsessivo com este assunto da esquizofrenia da partilha de informação em redes, mas, depois da polémica discussão do projecto-lei que consagra, em França, o droit à l’oubli numérique, leio, hoje mesmo, no JN, que foi criada, há um ano, a primeira empresa especializada em “verificar nas redes sociais o passado de candidatos a empregos”: “Tudo o que foi dito nos sete anos anteriores à candidatura é escrutinado para verificar a idoneidade dos possíveis funcionários”.

    Não posso dizer que me surpreenda. Talvez estranhe o facto de apenas agora ser notícia, ou a pouca expressão que o sector assume, para já.

    “Não somos detectives”, diz Max Drucker, director-executivo da Social Intelligence, ao jornal norte-americano. “Toda a informação que juntamos esta disponível publicamente na Internet”, garante o responsável da empresa.

    Não consigo, contudo, deixar de me sentir profundamente incomodado quando penso na gratuitidade com que se promove a introdução de dados na rede. O argumento de que é possível salvaguardar informação sobre a vida privada parece-me, cada vez mais, uma anedota. A rede acabou com a vida privada como a conhecíamos, simplesmente. Uma rede onde nada pode, realmente, ser apagado, onde tudo é absolutamente à jamais desde o momento em que é divulgado e se aloja, potencialmente, em milhões de terminais. Onde o comentário de circunstância ou uma resposta marginal recebem o mesmo valor, a mesma intensidade ontológica de uma declaração perpétua: para sempre. As possibilidades de decidirmos acerca do nosso passado são cada vez mais remotas. Não posso ser senão quem fui. Depressa, vivemos imersos num suplício tantalógico, feito de uma repetição sucessiva, inalterável e lapidar do mesmo. Já não está nas nossas mãos reinventar o futuro das nossas vidas, na medida em que isso signifique um corte com o que fomos. Somos todos cadastrados por delito de opinião.

    E, o que é pior, por vontade própria.

    Quase sem dar por isso, somos todos vítimas da lógica wikileaks. Independentemente do que tenhamos lançado online a nosso respeito, está em causa salvaguardar o direito à integridade inviolável da memória, por um lado, e, por outro, à manutenção de um espaço público enquanto tal: suficientemente aberto para que possamos conversar sobre nós e sobre o que pensamos sem um dossier com uma plasmação do  nosso passado. Infelizmente, tanto uma como outra não cabem na estreita capacidade reflexiva da rede: como observou, com uma acuidade notável, Slavoj Zizek, vivemos na época do cinismo universal. E a nossa vergonha por tolerarmos um poder tal sobre todos nós é uma vergonha que partilhamos com um prazer sádico, ao torná-la pública, publicitada. Fomos devorados pelo jogo que julgáramos ter inventado, e agora, sem um espaço público com a dignidade que merece essa designação, chafurdamos alegremente na tragédia de um tempo sem interior.

    Não creio que esteja a ser romântico, não creio que esteja a exagerar. Fizemos, voluntariamente, aquilo que dificilmente alguma máquina de guerra ou serviços de inteligência teriam conseguido fazer a esta escala. Mais: fizemo-lo acreditando que estaríamos mais próximos uns dos outros, assim. Nunca menos. Ao reduzir “o que vale a pena” a categorias pré-definidas espaçamo-nos mais ainda, isolados em rótulos inabitáveis e amorfos. O resultado está à vista. Mas afinal, de que estávamos à espera? Nós preenchemos a ficha. Eles limitam-se a fazer uso dela. “Não somos detectives”.

     
  • pedrolopesalmeida 20:01 on 24/07/2011 Permalink | Responder  

    Os ensaios de Maria Lúcia Lepecki foram uma… 

    Os ensaios de Maria Lúcia Lepecki foram uma das minhas companhias mais ou menos constantes durante o tempo da licenciatura. Tive o privilégio de a ouvir algumas vezes, e recordo-me do modo como acrescentava, com a sua presença, com o pensamento vivo e fresco, com a fluência luminosa de uma pronúncia quente, um encanto especial ao profundo conhecimento que partilhava com um prazer visível.

    A literatura perdeu, hoje, uma amante como poucos.

     
  • pedrolopesalmeida 19:32 on 24/07/2011 Permalink | Responder  

    uma voz negra, muito negra. 

    Desapareceu, ontem, Amy Winehouse. Julgo que devo um pedido de desculpas por ter teimado, até recentemente, que o comboio descendente fazia parte da obra desta mulher. Não quis acreditar que a voz de Back to Black não tinha gestores de imagem que administrassem a conduta sua pessoal. Não quis acreditar que não havia uma equipa nos bastidores de um fenómeno musical à escala planetária como Amy, uma equipa que definisse limites para os excessos de Amy. Não me pareceu verosímil que a locomotiva fosse, afinal, um cometa tão isolado a ponto de poder acontecer isto. Insisti que o decadentismo performativo havia sido assimilado pelo horizonte de expectativas, e já fazia parte, como carimbo de autenticidade e singularidade de cada actuação, do próprio ethos dos concertos, que, assim, se elevavam à categoria de happenings. Tudo o fazia crer. A cobertura mediática centuplicou depois das primeiras quedas em palco, a visibilidade pública alcançou uma projecção sem precedentes, em todo o mundo havia milhares de pessoas, em qualquer concerto seu, de máquina de filmar ou telemóvel em punho, à espera de captar o momento que no youtube faria sucesso no dia seguinte. A distância entre o estrelato e o mito estava a ser superada.

    Afinal, não era nada disso. A fraqueza era, afinal, humana. Demasiado humana. Perdeu-se uma grande voz, uma voz poderosíssima.

     
  • pedrolopesalmeida 14:32 on 22/07/2011 Permalink | Responder  

    os trabalhos e os dias. 

    Hadewijch, de Bruno Dumont, é um daqueles filmes que merecem ser chamados do seu tempo: um filme contemporâneo de si mesmo, um filme do nosso tempo, até ao limite. Mais do que um ensaio sobre os extremos (quais extremos? qual centro?), é uma reflexão depurada acerca da fragilidade que preside à busca de um sentido para o excesso de sentidos dos nossos dias. Entre a glória do ascetismo e a caricatura, existe um halo breve onde se reorganiza a procura, um espaço por nomear, onde a salvação e o esquecimento se indistinguem numa golfada de ar. E vamos ficando nestas imagens, presos pelos olhos a uma luz estranha e silenciosa que se desprende dos ângulos mal aparados de uma cidade quase humana, onde vamos ficando.

    Às vezes, a redenção mora ao lado.

     
  • pedrolopesalmeida 01:37 on 22/07/2011 Permalink | Responder  

    omeletes sem ovos? 

    Nos últimos anos, parece ter-se tornado mais ou menos curial escrever, por esta altura, sobre os maus resultados nos exames nacionais, por norma reportando-se à disciplina de matemática, pontualmente, com uma referência de passagem ao português.

    Não estou minimamente interessado em cumprir esse ritual das lamentações, não vejo que isso tenha alterado substancialmente as coisas. Mas não posso deixar sem menção este artigo do Vasco Graça Moura, aliás, à Vasco Graça Moura, onde são revisitados alguns lugares comuns dessa retórica da civilização perdida. Toda a gente sabe que a “estupidez dos programas adoptados, a permissividade, a indiferença das famílias, a incompetência dos políticos” (onde, suponho, VGM se inclui) são, em dose a apurar, responsáveis por um estado de paralisia crítica generalizada dos alunos à saída do ensino secundário. Não é novidade para ninguém que as competências dos nossos estudantes enquanto leitores são escassas ou nulas, e que grande parte dos problemas que eles têm com a matemática decorrem de uma ausência maciça de aptidão interpretativa quando confrontados com os enunciados. Mas não creio que seja uma proposta especialmente válida, hoje, a do simples e inocente ‘regresso à idade do ouro’ do ensino do português, seja lá isso o que for.

    Há exactamente um ano, a colecção de ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos iniciava o seu plano de publicações com o estudo O Ensino do Português*, da autoria da professora Maria do Carmo Vieira. Um livro que, para além de não ter visto reposto nas estantes das livrarias, tem merecido, a meu ver, muito menos atenção do que seria desejável (inclusivamente entre os professores). Neste trabalho – exemplar a vários títulos, e cuja leitura me parece, agora, indispensável – faz-se uma radiografia crítica e rigorosa do estado actual do ensino da língua materna, nas suas diversas componentes – pedagógica, científica, criativa, legislativa, profissional. Uma radiografia com a vantagem de recusar definições fáceis e indignações baratas, mas que se atreve a apontar o dedo, sempre que necessário, às abjecções que grassam no domínio do ensino, entre as quais avulta a do chamado ‘paradigma das competências’ e dos ‘saberes mobilizáveis’ entre ‘ensinantes’ e ‘aprendentes’:

    Com efeito, a secundarização da relação ensinar-aprender teve em vista tornar ilegítimo o verbo «ensinar», banindo-o da função de um professor, e daí o aumento de conflitos na sala de aula. […] Da deterioração do acto de ensinar adveio, em simultâneo, o menosprezo pelo dever da exigência e pela competência do professor. Privilegiando-se quase exclusivamente a componente pedagógica, a sua formação científica foi sendo desvalorizada de modo gradual. (p. 17)

    E se aqui reproduzi uma reflexão de Santana Castilho acerca do exame de acesso à docência, a verdade é que sou forçado a reconhecer, com o Tiago, que muita gente sai das Faculdades exactamente como lá entrou, apenas com mais três anos no BI. (Por outro lado, não me parece que exames a realizar depois de concluída a formação específica sejam solução – introduzem, aliás, um factor de suspeição sobre o trabalho académico a todos os níveis, que mina a tão pregada confiança científica. Se um candidato à docência não se encontra preparado para exercer funções, não deve ser encartado para tal, simplesmente. Empurrar com a barriga para depois retirar ao (então já) professor a possibilidade de fazer uso das suas qualificações não me parece o mais sensato.) O certo é que a debilidade da formação científica, estimulada por todos os lados – licenciaturas de três anos; obrigatoriedade de formação ao nível do mestrado de índole pedagógica, em detrimento do conhecimento da literatura; precariedade e instabilidade do corpo docente; gastos colossais de tempo em funções de índole burocrática e administrativa – redunda, mais cedo ou mais tarde, num modelo baseado na mediocridade e no simplismo, numa configuração grotesca que mais parece uma paródia do Ensino:

    Há alunos que chamam já a nossa atenção para a obrigatoriedade de «aulas lúdicas», que não exijam esforço, compreenda-se, e outros que justificam a incorrecção do seu comportamento com o facto de serem «os revoltados da sociedade», atitude em que passivamente se comprazem. (p. 18)

    Querendo mudar tudo, criámos um monstro compósito sem um rumo definido. Chocou-me ver desaparecer os livros das escolas, muito antes da revolução digital, substituídos por espécies de “brochuras” cheias de desenhos, fotografias de meninos a brincar e letras garrafais coloridas, num exercício de infantilização confrangedor que fazia de nós, miúdos de 16 anos, perfeitos atrasados mentais. Como sempre, importámos um certo número de ideias vagamente lidas algures, e algumas das mais preciosas lições de Jacques Rancière transformaram-se em aberrações de uma pedagogia traiçoeiramente sedutora e desfocada, incompletamente reflectida, panfletariamente instaurada. Não, não creio que o discurso virginalmente ofendido de VGM ofereça uma solução viável a este estado de coisas. Considero uma coisa óbvia a necessidade de eliminar elefantes brancos curriculares como a área de projecto para reservar mais tempo às disciplinas nucleares. Contudo, por si, isso representa muito pouco. Sem um reforço da capacidade lectiva, apenas possível através da introdução de factores de estabilidade nos quadros das escolas, da diminuição do número de alunos por turma, da libertação dos professores de sobrecargas administrativas e de uma política de investimento científico na docência será possível reverter este processo. Como aqui dizem os políticos, outra coisa, é querer enganar as pessoas.

    *Maria do Carmo Vieira, O Ensino do Português, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Junho de 2010.

     
  • pedrolopesalmeida 15:51 on 18/07/2011 Permalink | Responder  

    E também a forma como a produzimos. Mas isso é outro assunto. 

    O “efeito Google” está a mudar a forma como memorizamos informação – Tecnologia – PUBLICO.PT.

     
  • pedrolopesalmeida 01:09 on 18/07/2011 Permalink | Responder  

    portuguese university press? 

    O Miguel Vale de Almeida escreve aqui a propósito da inexistência de imprensas universitárias em portugal, convocando, como contraponto, o caso da University of California e da University of California Press, para concluir pela necessidade de uma “Imprensa Universitária Portuguesa”.

    O tema é, parece-me, de uma importância tal que não pode continuar a ser adiado como até agora.

    A verdade é que o que temos, neste momento, é uma miríade de pequenas “imprensas universitárias”, muitas vezes de natureza local, e que, verdadeiramente, não o são, embora o sejam, funcionalmente: da Angelus Novus à Colibri, passando pela Granito, pela Cosmos, pela Gulbenkian, pela Deriva, pelas ed 70, pela incontornável INCM ou até pela Relógio d’Água, todas cumprem, cada uma à sua maneira, aspectos de uma Imprensa Universitária, as mais das vezes, em colecções específicas para esse efeito. Todas elas, de uma ou de outra forma, servem de montra de trabalhos académicos e de divulgação científica/cultural ou artística, dando a conhecer o trabalho realizado nas universidades portuguesas. Em quase todas elas, infelizmente, um livro com mais de quinze anos é um livro difícil de arranjar, e um livro esgotado é, quase sempre, um livro perdido para sempre para a nossa biblioteca. É aí que se sente mais agudamente, a meu ver, a falta de imprensas universitárias.

    Quando comecei a licenciatura na UP, era possível encontrar todos os livros do catálogo da gulbenkian numa pequena livraria anexa aos serviços de acção social da universidade. Naquele sítio, sabíamos que podíamos comprar os livros da FCG com cinquenta por cento de desconto sobre o preço de capa. Sim, cinquenta por cento de desconto.

    Penso que é esta a vocação de uma imprensa universitária: proporcionar uma ampla gama de trabalhos académicos a um público alargado e por um preço reduzido (eventualmente, através de condições especiais para estudantes), sem o espartilho dos critérios comerciais, mas tendo em vista a satisfação das necessidades lectivas, científicas, de investigação e divulgação do trabalho feito. Acima de tudo, tornar o livro mais acessível, isto é, mais disponível e mais barato. Não creio, ao contrário do Miguel Vale de Almeida, que essa função pudesse ser desempenhada por uma enorme “Imprensa Universitária Portuguesa”. Nós não somos a Califórnia: há mais identidades universitárias específicas e interesses académicos próprios do Mondego para cima do que nos 58 condados da Califórnia. O mais certo é que um tal colosso editorial acabasse por publicar, na maior parte do tempo, os trabalhos produzidos nas universidades da grande lisboa, reservando para as margens do programa de publicações um ou outro estudo das universidades “do resto do país”. E digo-o porque já estamos habituados a essa música, noutros bailes.

    Creio que as estruturas de imprensas universitárias deveriam ser pensadas ao nível das universidades. Porventura, podia até ser estudado um projecto supra-regional: porque não agrupar a UP, a UTAD e a UMinho numa Imprensa Universitária única?

    É verdade que a UP já deu passos a este respeito, com a UPorto editorial. Aqui, porém, a principal vantagem é, também, o maior obstáculo: o superior padrão material das edições, por um lado, eleva o preço dos títulos acima do que seria de esperar de uma imprensa universitária, e, por outro lado, critérios de visibilidade institucional e comunitária que não cabe aqui discutir fazem com que raramente as obras publicadas sirvam um público – ainda que académico – , minimamente amplo. Mesmo assim, talvez seja um razoável ponto de partida.

     
    • João Moura 10:48 on 18/07/2011 Permalink | Responder

      Tenho que admitir que infelizmente, e por muito preconceituoso que possa estar a ser, uma Imprensa Universitária Portuguesa não iria funcionar por cá porque, exatamente como dizes, o nosso país é dividido por especificidades às vezes não muito fortes nem diferenciadas (e com mais pontos de encontro do que se pensa) mas que para o pensamento “tacanho” (e aqui está o preconceito) Português é um muro impenetrável que impossibilita o trabalho colaborativo entre a academia Portuguesa. Isso e já a expectativa da assimilação de tudo pelo nosso núcleo atómico económico que é Lisboa.

c
Compose new post
j
Next post/Next comment
k
Previous post/Previous comment
r
Responder
e
Editar
o
Show/Hide comments
t
Go to top
l
Go to login
h
Show/Hide help
shift + esc
Cancelar